
Por mais de três décadas, empresas de combustíveis fósseis financiaram pesquisas em universidades de prestígio dos Estados Unidos para impulsionar estudos sobre captura e armazenamento de carbono (CCS, na sigla em inglês), tecnologia apontada pela indústria como uma das principais soluções para enfrentar as mudanças climáticas. É o que revela uma investigação publicada pela ProPublica em parceria com a Drilled e compartilhada pelo ClimaInfo.
Segundo a reportagem, o apoio financeiro ia além de doações para pesquisa. As empresas patrocinavam centros acadêmicos, pagavam salários de pesquisadores, mantinham escritórios dentro dos campi e, em alguns casos, tinham poder de veto sobre projetos científicos.
De acordo com a investigação, esse modelo de financiamento ajudou a consolidar a ideia de que seria possível conter o aquecimento global sem reduzir significativamente o consumo de petróleo, gás e carvão, priorizando soluções tecnológicas para capturar o dióxido de carbono emitido na atmosfera.
As universidades afirmam que o financiamento privado pode fortalecer a pesquisa sem comprometer a independência científica. Já as empresas dizem apoiar a inovação e o desenvolvimento de tecnologias para enfrentar a crise climática. Para Benjamin Franta, professor associado de litígios climáticos da Universidade de Oxford ouvido pela reportagem, o padrão observado representa uma “colonização da academia”.
Um dos principais exemplos citados pela investigação envolve a BP e a Universidade de Princeton. Segundo a ProPublica e a Drilled, a companhia financiou um centro de pesquisa voltado ao desenvolvimento de soluções climáticas que permitissem manter o uso de combustíveis fósseis. Nesse contexto surgiu, em 2004, o artigo conhecido como “Wedges”, que se tornou uma das publicações mais influentes sobre estratégias de mitigação das mudanças climáticas.
A investigação afirma que pesquisadores compartilharam diferentes versões do texto com executivos da BP antes da publicação e apresentaram a captura e armazenamento de carbono como uma tecnologia já consolidada em escala industrial — avaliação que, segundo a reportagem, não correspondia à realidade.
O estudo acabou influenciando políticas públicas nos Estados Unidos, foi incorporado a relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), citado mais de 3 mil vezes na literatura científica e utilizado em universidades como Harvard e MIT.
Limitações da captura de carbono
A investigação também questiona a viabilidade da captura e armazenamento de carbono como principal estratégia para conter o aquecimento global. Com base em estudos da ONU, a reportagem afirma que atingir a escala necessária exigiria injetar cerca de 6 bilhões de toneladas de CO₂ por ano em reservatórios subterrâneos até meados do século.
Isso implicaria instalar sistemas de captura em refinarias e usinas termelétricas, ampliar significativamente a infraestrutura de transporte de carbono e expandir áreas destinadas à remoção de CO₂ da atmosfera.
Segundo a investigação, apenas nos Estados Unidos seriam necessários cerca de 110 mil quilômetros de novos dutos para transportar o carbono capturado. Também seria preciso criar mais de 2 mil reservatórios geológicos permanentes para armazenamento — muito acima dos 12 grandes projetos atualmente existentes.
Além disso, a análise cita estimativas de que seriam necessários quase 2 milhões de quilômetros quadrados de vegetação para remoção adicional de carbono, área equivalente ao território do México, o que aumentaria a competição pelo uso da terra.
Fonte: Um só Planeta




