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DEVASTAÇÃO

Incêndios florestais ativos há cerca um mês colocam milhares de animais em risco na Patagônia

O estrago é tão grande que ainda não é possível dimensionar completamente o impacto sobre os animais silvestres, já que muitos incêndios continuam ativos.

3 de fevereiro de 2026
Redação ANDA
5 min. de leitura
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Cães resgatados após serem afetados pelos incêndios. Foto: Patricia Vidal

A Argentina mobilizou bombeiros de diversas regiões e intensificou o uso de aeronaves para tentar conter, nesta segunda-feira (02/02), os incêndios florestais que há cerca um mês avançam pela província de Chubut, no sul da Patagônia. Mais de 50 mil hectares de florestas já foram destruídos, devastando o habitat, os abrigos e os alimentos de milhares de animais silvestres, enquanto animais domésticos ficam presos em áreas tomadas por fumaça, cinzas e solo incandescente, lutando para sobreviver em um dos piores casos de queimadas já registrados na região.

Do ponto de vista científico, o impacto dos incêndios é desigual, já que espécies com baixa mobilidade estão entre as mais afetadas, como no caso do monito-do-monte (Dromiciops gliroides), um pequeno marsupial considerado um “fóssil vivo” e peça-chave na regeneração florestal por seu papel na dispersão de sementes. Em incêndios de copa, a mortalidade dessa espécie pode chegar a quase 100%, comprometendo a recuperação natural dos ecossistemas.

Outras espécies famosas da fauna patagônica também enfrentam riscos severos. O huemul (Hippocamelus bisulcus), veado-andino já ameaçado e com população fragmentada, é forçado a fugir para áreas sem cobertura vegetal, onde fica mais exposto a predadores e à escassez de alimento. Aves emblemáticas, como o pica-pau-de-magalhães e o condor-andino, perdem ninhos históricos justamente em períodos críticos de reprodução, o que gera perdas diretas de filhotes ao longo de gerações.

Segundo a bióloga Susana Rizzuto, professora da Universidade Nacional da Patagônia San Juan Bosco, ainda não é possível dimensionar completamente o impacto sobre os animais silvestres, já que muitos incêndios continuam ativos. “Essas áreas abrigam espécies emblemáticas como o huemul, o pudu, o puma e o monito-do-monte. Muitas delas podem não ter conseguido escapar”, afirmou à Mongabay Latam. Ela também relatou o aparecimento de animais feridos ou desorientados em estradas e áreas povoadas.

A região também tem uma grande presença de bois, cavalos e ovelhas, que ficam expostos ao fogo e à fumaça dos incêndios. Esses animais vivem em áreas de pastagem de verão, especialmente em regiões de altitude, onde muitos estavam no meio do ciclo de engorda e não conseguiram fugir a tempo. Com a vegetação queimada, eles permanecem em campos transformados em um “deserto de cinzas”, sem alimento suficiente e obrigados a percorrer longas distâncias sobre solo quente e instável em busca de sobrevivência.

Além da fome, os animais enfrentam dor física. De acordo liberalmente, equipes do Instituto Nacional de Tecnologia Agrícola (INTA) relatam queimaduras nos cascos provocadas pelo contato com cinzas incandescentes e solo superaquecido, uma das principais causas de prostração e incapacidade de locomoção em bois e cavalos. Muitos permanecem caídos por dias, sem conseguir caminhar, expostos ao calor extremo, à desidratação e a infecções. A destruição de fontes de água agrava o quadro, deixando animais debilitados sem acesso a hidratação básica em meio a ondas de calor persistentes.

O sofrimento é intensificado pela inalação prolongada da fumaça, que contém partículas e gases tóxicos que causam lesões oculares graves, como ceratoconjuntivite, que pode levar à perda da visão se não houver tratamento. O choque metabólico provocado pela fuga desordenada reduz as defesas do organismo, facilitando o surgimento de doenças oportunistas. Segundo veterinários que atuam nas áreas atingidas, mesmo animais que escapam das chamas apresentam um quadro clínico delicado, com dores intensas, desorientação e risco elevado de morte nos dias seguintes ao incêndio.

Cães e gatos também sofrem com o deslocamento forçado durante as evacuações. Organizações de proteção animal e redes de veterinários montaram centros de acolhimento para tratar queimaduras, problemas respiratórios e lesões nas almofadas das patas. A prioridade, segundo os profissionais, é conter o edema das vias aéreas causado pela inalação de fumaça e garantir a mobilidade dos animais resgatados.

A veterinária Daniela Navarro, que atua no atendimento emergencial, afirmou que a maioria dos casos envolve animais domésticos e de fazenda, mas não descartou impactos severos sobre os animais silvestres. “Ainda é difícil acessar as áreas queimadas. Você literalmente queima os pés ao tentar entrar”, relatou.

No trabalho comunitário, a moradora de El Bolsón Patricia ‘Patito’ Vidal descreveu uma realidade de abandono e exaustão. “A vida humana é sempre priorizada e os animais ficam em situação de extrema vulnerabilidade”, afirmou. Ela relatou cenas dramáticas, como o comportamento de ovelhas que formam círculos para proteger os filhotes diante do fogo. “Muitas morrem queimadas vivas porque não conseguem escapar.”

Sem apoio suficiente, Vidal e outras voluntárias financiam do próprio bolso o resgate e o tratamento dos animais. “Meu único interesse é ajudar pessoas e animais”, disse. “Chega o verão e você vive com medo, tenso e nervoso.”

Especialistas alertam que os efeitos sobre a fauna e a flora da Patagônia ainda serão sentidos por muitos anos, especialmente para espécies de animais que talvez nunca consigam retornar às florestas que viraram cinzas.

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