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DEVASTADOR

Incêndio florestal ameaça a vida de animais e destrói a natureza na Patagônia

Voluntários e bombeiros atuam em resgates, tratamento de animais feridos e contenção das chamas, enquanto a baixa visibilidade dificulta o combate aéreo e amplia os danos ambientais.

11 de janeiro de 2026
Júlia Zanluchi
4 min. de leitura
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Foto: Martin Levicoy/AFP

Os incêndios criminosos que estão devastando a Patagônia argentina nesta última semana colocam em sério risco a vida de inúmeros animais. O fogo já consumiu mais de 2 mil hectares de vegetação nativa, afetando florestas, pastagens e áreas protegidas, onde inúmeros animais silvestres e domésticos lutam para sobreviver em meio ao calor extremo, à fumaça densa e à escassez de alimento.

As altas temperaturas, próximas de 30 °C, e a ausência de chuvas agravam o cenário. A fumaça concentrada no Vale do Epuyén tem dificultado a atuação de aeronaves de combate ao fogo, prolongando a exposição dos animais às chamas e à inalação de gases tóxicos.

Enquanto bombeiros e brigadistas concentram esforços na proteção de residências, animais que habitam as florestas, como aves, pequenos mamíferos e espécies endêmicas, enfrentam a perda abrupta de abrigo e habitat.

Moradores relatam cenas de desespero. “Ouvir o rugido do fogo, as árvores de coihue centenárias caindo, os animais de Pirque gritando. Ouvir as bombas d’água a todo vapor. As instruções no rádio. O canto dos pássaros, perseguidos pelo calor. Ouvir o desabamento é estar dentro deste incêndio”, descreveu a ativista e cientista política Flavia Broffoni, que atua há dias na defesa de sua região ao lado de vizinhos. Segundo ela, além da destruição ambiental, o incêndio já comprometeu equipamentos essenciais usados pela comunidade, dificultando ainda mais a proteção da área e dos seres vivos que nela habitam.

Foto: Martin Levicoy/AFP

De acordo com o veterinário Walter Díaz, que trabalha como voluntário na região, o incêndio teve um impacto devastador para os animais. “A situação atual é crítica e muito triste. O incêndio devastou toda a região, causando não só perdas materiais, mas também a perda de animais domésticos e selvagens”, afirmou Díaz. “O prejuízo é enorme. Este não é o primeiro incêndio a atingir a região. Temos problemas semelhantes todos os anos.”

Atuando de forma independente, o veterinário explica que o atendimento aos animais é organizado por meio de redes de solidariedade. Voluntários montam estruturas improvisadas para cuidar de cães e gatos e percorrem áreas rurais e florestais para prestar assistência a animais de grande porte e aos animais silvestres. As cenas encontradas, porém, são devastadoras. “Em regiões onde há muitas famílias, os cavalos são animais de trabalho e de companhia. Havia muitos cavalos, e a maioria morreu no incêndio. Essa é a realidade”, relatou Díaz.

Entre os animais que sobreviveram, muitos apresentam queimaduras graves. O tratamento, segundo Díaz, é longo e exige cuidados diários. “Não é algo que se resolve em uma hora. As queimaduras levam muito tempo para cicatrizar. Em Puerto Patriada, estamos tratando principalmente cavalos com queimaduras severas, que precisam de atenção constante”, explicou.

Foto: Diário Jornada

Além dos ferimentos, há o problema dos animais desaparecidos. Durante os incêndios, cães e gatos fogem instintivamente, se perdem e passam a vagar pela região. “Depois começa o trabalho de localizá-los, divulgar informações e tentar reuni-los com seus tutores”, disse o veterinário. No caso da vida selvagem, o atendimento não faz distinções. “Ajudamos todos os tipos de animais. Cuidamos de animais de fazenda, domésticos e animais silvestres, sem discriminar espécies.”

Em um dos resgates que mais comoveram a comunidade, bombeiros libertaram um cachorro que estava acorrentado próximo a uma casa prestes a ser consumida pelo fogo, também em Puerto Patriada. Exausto e desidratado, o animal recebeu água e foi levado para um local seguro.

Organizações ambientalistas alertam que o desastre vai além das perdas imediatas. Em nota, o Greenpeace cobrou ações firmes dos governos nacional e provinciais, destacando que os incêndios já destruíram mais de 2.000 hectares na Patagônia, inclusive dentro de parques nacionais. Segundo a entidade, a combinação de crise climática, seca prolongada, altas temperaturas, ventos fortes e a presença de pinheiros invasores cria um ambiente altamente propício para incêndios de grandes proporções, com efeitos devastadores para a biodiversidade.

O cenário futuro também preocupa. Embora, no momento, haja medicamentos e insumos para o tratamento dos animais feridos, Díaz alerta que o maior desafio será a médio e longo prazo. “A floresta foi devastada. Não haverá comida agora nem no inverno”, advertiu. A principal necessidade, segundo ele, é a doação de alimentos, especialmente nas áreas rurais e semi-rurais.

Enquanto o fogo segue ativo e as condições climáticas permanecem desfavoráveis, moradores, brigadistas e voluntários continuam mobilizados. “Hoje estamos tentando aliviar a dor e o sofrimento dos animais, mas a recuperação levará muito tempo e exigirá o compromisso contínuo de toda a comunidade”, concluiu Díaz.

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