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LEGÍTIMA DEFESA

Homem morre após invadir recinto de leoa no Parque Zoobotânico Arruda Câmara, em João Pessoa (PB)

Imagens mostram ele escalando uma estrutura até alcançar o telhado do recinto e, em seguida, entrando na área do animal que não possui qualquer contenção real ou barreira eficiente.

30 de novembro de 2025
Redação ANDA
5 min. de leitura
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Foto: Reprodução

A morte do homem que invadiu o recinto de uma leoa no Parque Zoobotânico Arruda Câmara, em João Pessoa, não é um acidente isolado nem uma fatalidade imprevisível. É o retrato cru do colapso do modelo de zoos no Brasil e da falência de um sistema baseado no confinamento e na exploração de animais silvestres para entretenimento humano. A responsabilidade é da administração e de uma estrutura que insiste em manter vidas aprisionadas em nome de um lazer que já não se sustenta ética, científica nem moralmente.

As imagens que circulam mostram o homem, que já tinha 10 passagens na polícia, escalando uma estrutura até alcançar o telhado do recinto e, em seguida, entrando na área do animal sem qualquer contenção real ou barreira eficiente. A facilidade com que ele acessou o espaço revela uma falha grave e inaceitável. Os animais estão absolutamente vulneráveis.


A leoa agiu por instinto, como qualquer animal selvagem faria ao ter seu território repentinamente invadido. Não houve comportamento predatório, não houve tentativa de caça, apenas uma resposta de defesa. Ela não se alimentou do corpo. Isto é claro e deve ser enfatizado. O episódio não foi motivado por agressividade gratuita, mas por uma reação natural diante de uma ameaça imediata dentro de um ambiente que já lhe impõe confinamento e tensão contínua.

Ainda assim, o animal foi contido para que a Polícia Militar e a perícia pudessem acessar o local e iniciar os procedimentos de investigação.

Em situações como essa, é comum que o animal se torne o próximo alvo. A ANDA alerta que qualquer tentativa de punição, sedação excessiva, isolamento ou morte da leoa será mais um crime contra uma vítima que já vive em cárcere permanente e tem seus instintos violentamente reprimidos todos os dias. A leoa não pode ser morta nem penalizada pelo erro humano e institucional que levou a essa tragédia.

O caso da Bica não surge no vazio. Belo Horizonte, por exemplo, acumula um histórico amplamente denunciado envolvendo seu zoológico, com registros de mortes recorrentes, recintos degradados, animais doentes, falta de transparência e respostas superficiais por parte do poder público. Em diferentes regiões do país, a ANDA já denunciou situações semelhantes envolvendo grandes felinos, aves, primatas e outros animais submetidos a condições incompatíveis com suas necessidades biológicas.

Confinamento prolongado, espaço limitado, ausência de estímulos naturais e estresse constante transformam esses locais em ambientes de sofrimento contínuo. Animais andam em círculos, desenvolvem estereotipias e apresentam sinais evidentes de adoecimento físico e psicológico. São vidas reduzidas a objetos de exposição.

A ideia de que zoológicos cumprem papel educativo é, na prática, falaciosa. Não há educação quando o que se oferece ao público é a visão distorcida de um animal confinado e privado de qualquer direito básico. Ensinar crianças a observar um leão atrás de grades não é educação ambiental. É a normalização da violência contra a vida silvestre.

O episódio em João Pessoa deixa isso ainda mais evidente. Se o recinto fosse realmente seguro, se as estruturas fossem adequadas e se o modelo fosse ético, esse homem jamais teria chegado até o animal. Não teria cruzado nenhuma fronteira, não teria colocado em risco a própria vida nem a de uma leoa que nunca deveria estar ali.

A ANDA reafirma que o caminho não passa por reformas paliativas, placas novas ou cercas mais altas. O problema é estrutural. A alternativa existe e se chama santuário. Espaços onde não há exibição, não há espetáculo, não há exploração. Há silêncio, respeito, cuidado e, quando possível, reabilitação.

A leoa não deveria estar naquele recinto. Nenhum animal deveria estar. O que aconteceu em João Pessoa é consequência direta de uma escolha humana equivocada, mantida por anos sob o discurso de tradição e turismo.

A morte deste domingo não pode ser apenas mais uma manchete. Precisa ser o ponto final de um modelo que aprisiona, adoece e transforma vidas em atração.

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