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FUTURO INCERTO

Geleiras sul-americanas: menos proteção, mudanças climáticas e mineração ameaçam os gigantes de gelo

9 de abril de 2026
Ivan Paredes Tamayo
9 min. de leitura
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Geleiras Pastoruri, no Peru. Foto: Pixabay

As geleiras andinas estão cercadas por ameaças. Especialistas que estudam esses ecossistemas não encontraram resultados animadores quanto à situação dessas massas de gelo, que podem garantir o abastecimento de água para milhões de pessoas. O aquecimento global e as atividades extrativistas estão afetando as geleiras, causando o rompimento de lagos glaciais, deslizamentos de terra e avalanches.

A Mongabay Latam entrevistou especialistas em geleiras da Argentina, Peru, Bolívia, Equador e Colômbia. Na Argentina, o governo de Javier Milei e seu bloco legislativo estão promovendo alterações na Lei das Geleiras, com o objetivo de viabilizar investimentos em mineração em ambientes periglaciais. Essa alteração já foi aprovada pelo Senado e ainda precisa da aprovação da Câmara dos Deputados, que poderá voltar a analisar o assunto esta semana.

O partido no poder tem sua própria base eleitoral, que seria reforçada por deputados de outros blocos. Esse apoio poderia garantir a aprovação das emendas, apesar das audiências públicas realizadas naquele órgão legislativo para tentar bloquear o projeto de lei do governo.

A iniciativa foi promovida pelo governo Milei em coordenação com os governadores de províncias mineradoras como Catamarca, San Juan, Salta e Mendoza, com o objetivo de atrair investimentos por meio do Regime de Incentivo a Grandes Investimentos (RIGI). Essas regiões concentram grande parte do potencial de mineração do país, especialmente em cobre e lítio, o que reforça o interesse na modificação do marco regulatório.

Sebastián Crespo, doutor em Ciências Aplicadas e pesquisador do Instituto Argentino de Ciência da Neve, Glaciologia e Ciências Ambientais (Ianigla) e do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica (Conicet), explicou à Mongabay Latam que as geleiras e o ambiente periglacial na Argentina estão localizados em áreas preferenciais de acumulação de neve, constituindo zonas onde se gera água que flui pelos rios e onde os aquíferos subterrâneos são recarregados.

“Embora sua contribuição seja constante, em bacias áridas com escassez estrutural de água, seu papel é vital: durante os ciclos de seca, nos Andes centrais, elas contribuem com mais de 50% da vazão de verão, compensando o déficit de chuvas diante da demanda socioeconômica”, explicou Crespo.

O especialista acrescentou que essa dependência pode piorar em cenários de mudanças climáticas e com certas indústrias extrativas, como a mineração, que podem projetar — segundo ele — uma redução de 30% nas chuvas nos Andes. “Além de seu valor produtivo, essas massas de gelo sustentam ecossistemas altamente biodiversos, como os pântanos andinos de altitude. Portanto, cada massa de gelo inventariada representa um recurso crítico; mesmo aquelas com taxas de derretimento reduzidas ou percolação profunda constituem uma reserva estratégica”, afirmou.

Reservas de água em risco, segundo especialistas

Juan Rivera, doutor em Ciências Atmosféricas e Oceânicas e pesquisador do IANIGLA, explicou que a Argentina sofre com a redução das chuvas em certos períodos, o que diminui as massas de gelo, reservas hídricas estratégicas. “Subimos até a Cordilheira dos Andes e vemos as geleiras, mas essa é uma realidade que pode mudar em 50 anos. Estamos esgotando nossas reservas hídricas”, lamentou.

Rivera observou que eventos climáticos extremos também afetam as geleiras da Argentina. ” No verão, isso se manifesta como precipitação que causa deslizamentos de terra e avalanches. Além disso, temos os riscos geoclimáticos, onde terremotos e outros fenômenos interagem, criando riscos para a população”, afirmou.

Na Bolívia, a situação é crítica. Em março de 2025, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) alertou que as geleiras bolivianas estão “morrendo “, afetando inúmeras comunidades. A organização também alertou que, se essa tendência continuar, algumas geleiras desaparecerão completamente em 20 anos.

Alejandra Tancara, desenvolvedora e especialista técnica da MapBiomas Bolívia, compartilha dessa percepção. Ela explicou à Mongabay Latam que, segundo dados da organização para a qual trabalha, houve uma redução constante na área das geleiras bolivianas ao longo do tempo. A especialista afirmou que os dados mostram que, nos últimos 30 anos, as geleiras daquele país recuaram 32%.

Tancara explicou que esses dados indicam que as geleiras estão sofrendo uma redução contínua como consequência das mudanças climáticas, comprometendo a regulação natural dos fluxos e colocando em risco a segurança hídrica a longo prazo no país.

“A maior ameaça às geleiras é o aquecimento global. As geleiras tropicais estão sofrendo os efeitos das mudanças climáticas e de eventos climáticos extremos como La Niña e El Niño, que intensificam as temperaturas e as chuvas”, acrescentou o especialista. “Estima-se que mais da metade das geleiras tropicais desaparecerá nos próximos 30 anos”, afirmou Tancara. O especialista também disse que “os incêndios e as queimadas nas regiões amazônica e chiquitana representam uma ameaça. A fumaça dos incêndios nas terras baixas pode subir e ser levada até os Andes, já que existe uma conexão direta entre esses biomas”.

As geleiras da Bolívia representam 20% das geleiras tropicais da região, tornando-a o segundo país com maior número delas, depois do Peru. Essas geleiras são especialmente importantes devido à sua notável sensibilidade à variabilidade climática e à sua contribuição local para os recursos hídricos das bacias de alta altitude. Nas cidades andinas, as geleiras desempenham um papel fundamental no abastecimento de água potável para a população local. Além disso, a água de seu degelo é uma fonte para irrigação de plantações, geração de energia e atividades de mineração.

Assim, o recuo glacial é evidente em todas as geleiras bolivianas. A Cordilheira Real apresenta uma redução líquida de 28%; a Cordilheira Apolobamba, 39%; a Cordilheira Tres Cruces, 35%; a Cordilheira Norte, 34%; e a Cordilheira Sul, 53%.

Mineração em geleiras bolivianas

Em relação à expansão da mineração sobre as geleiras bolivianas, Ana Lía Gonzáles, gerente do projeto Vulnerabilidade Hídrica na Amazônia da Fundação Amigos da Natureza (FAN), disse à Mongabay Latam que na Cordilheira Real, ao norte de La Paz, especificamente nas nascentes do Huayna Potosí, o degelo alimenta lagoas e reservatórios de água doce. No entanto, ela afirmou que a atividade de mineração ocorre há mais de 30 anos, o que acarreta passivos ambientais.

“A mineração é prejudicial à manutenção dos ecossistemas glaciais. Os potenciais impactos da mineração nesses ecossistemas são evidentes desde a fase de exploração, quando estradas são construídas, muitas delas sobre geleiras e zonas úmidas de alta altitude, gerando poeira, partículas e resíduos que cobrem a superfície do gelo glacial, reduzindo o albedo [capacidade de refletir a radiação solar], o que, por sua vez, causa um aumento no derretimento glacial”, afirmou Gonzáles.

A especialista acrescentou que a Bolívia carece de um marco legal para a proteção de geleiras e zonas periglaciais, incluindo geleiras cobertas por detritos e geleiras de montanha, o que significa que não existem restrições ou regulamentações diretas para apoiar sua conservação. “Também não temos uma estratégia para lidar com o recuo glacial, apesar de sua importância e da dependência que temos delas para armazenar água da chuva por meio do congelamento e, posteriormente, liberá-la através do fluxo dos rios”, afirmou.

Peru: uma perda acelerada de geleiras

No Peru, a situação das geleiras também é crítica. Devido às mudanças climáticas, a cobertura glacial no país diminuiu 56% desde 1962, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas de Geleiras e Ecossistemas de Montanha (INAIGEM). O MapBiomas Peru também indica que 40% da área da superfície glacial foi perdida entre 1995 e 2024, o equivalente a 62.000 hectares.

“Os números variam dependendo do período analisado, mas a conclusão é sempre a mesma: a cobertura glacial no Peru está diminuindo e, segundo dados do Mapbiomas, essa diminuição ocorre em um ritmo cada vez mais acelerado”, disse Joaquín Romualdo, técnico do Instituto para o Bem Comum, que promove a ferramenta Mapbiomas no país, à Mongabay Latam. “A década de 2014 a 2024 registrou a maior perda de cobertura glacial, em consonância com o aumento das temperaturas registrado no país nos últimos anos”, acrescentou.

A diminuição da cobertura glacial levou algumas cadeias montanhosas a perderem 100% de suas geleiras, especialmente no sul do Peru, onde os picos nevados são de menor altitude em comparação com os da Cordilheira do Norte. Essa situação impacta negativamente diversos aspectos, sendo o principal deles a alteração do regime hidrológico nas cabeceiras das bacias hidrográficas. Muitas bacias andinas, explicou Romualdo, dependem principalmente das geleiras para o abastecimento de água durante a estação seca, e seu desaparecimento não só compromete o fornecimento de água para as populações locais, como também afeta a biodiversidade local.

“O fator mais significativo que influencia o derretimento das geleiras é o aumento da temperatura resultante das mudanças climáticas. No entanto, diversas atividades, como agricultura, turismo, indústria e mineração, também contribuem para a taxa de recuo glacial”, afirmou Romualdo.

Poluição glacial

No Peru, a atividade de mineração remove grandes massas de terra, destruindo vastas áreas de armazenamento de carbono e, consequentemente, liberando gases de efeito estufa, que contribuem para a redução da superfície glacial. Romualdo também afirma que outro problema causado pela mineração é a emissão de material particulado proveniente das atividades de perfuração e transporte de minerais.

“Esse material chega às geleiras e escurece a neve, diminuindo seu albedo e tornando-a mais suscetível ao derretimento”, disse o especialista peruano.

O Equador segue a tendência de todas as geleiras andinas do continente. Dados da Coleção de Água 3 do MapBiomas mostram que o país perdeu 48,1% de sua área glacial entre 1985 e 2024. Durante o mesmo período, especificamente em 2023, foi confirmada a perda total da geleira do vulcão Carihuairazo.

“As primeiras avaliações da superfície das geleiras em 2025 mostraram uma ‘falsa recuperação’, porque, ao contrário do que aconteceu em 2024, 2025 foi um ano com precipitação considerável, o que causou um acúmulo de neve e queda de neve nas encostas dos vulcões com geleiras”, disse Juan Espinosa, especialista em Sensoriamento Remoto e SIG da EcoCiencia, à Mongabay Latam.

O especialista acrescentou que, até o momento, não foi detectada nenhuma influência ou impacto direto das atividades de mineração nas paisagens glaciais no Equador. “Em relação às paisagens periglaciais, existe atualmente pressão das empresas de mineração sobre os ecossistemas de páramo e as zonas de recarga hídrica, o que poderia potencialmente gerar conflitos socioambientais com a aprovação de novas leis para promover atividades de mineração em todo o Equador”, afirmou Espinosa.

Por sua vez, a Colômbia perdeu 53,3% de suas geleiras entre 1985 e 2023, segundo dados do MapBiomas Colombia, com apoio da Fundação Gaia Amazonas.

Adriana Rojas, coordenadora técnica do MapBiomas Colômbia, afirmou que os dados coletados “mostram diminuições significativas na cobertura vegetal natural e um aumento nas atividades que causam seu declínio”. Uma dessas atividades, segundo ela, é a mineração ilegal, que na Colômbia cresceu 245,6% entre 1985 e 2023.

As geleiras da Colômbia estão concentradas em seis áreas: a Sierra Nevada de Santa Marta, a Sierra Nevada del Cocuy, o Nevado del Ruiz, o Nevado del Huila, o Nevado del Tolima e o Nevado Santa Isabel. Este último é um dos casos mais críticos, segundo o MapBiomas: em 2022, o Nevado Santa Isabel havia perdido 96% de sua cobertura glacial e agora está à beira do desaparecimento.

Enquanto isso, a Sierra Nevada del Cocuy, localizada entre as regiões de Boyacá e Arauca, conserva 12,8 quilômetros quadrados de gelo. Embora tenha sofrido uma perda anual aproximada de 4,8% desde 2017, essa geleira permanece, por ora, a mais estável do campo de gelo colombiano.

Traduzido de Mongabay.

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