Os resultados mostraram uma forte diferença entre as regiões: no Corredor Verde, que conecta trechos do Brasil, Argentina e Paraguai, ainda existe quantidade suficiente de presas para sustentar o predador. Entretanto, em áreas costeiras da Mata Atlântica, como a Serra do Mar, a biomassa de presas é extremamente baixa.
Esse padrão explica por que as onças persistem em algumas regiões e praticamente desapareceram de outras. Segundo Katia Ferraz, professora da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) e principal autora do estudo, o histórico de degradação da Mata Atlântica é um fator que contribui de forma decisiva, visto que as populações animais respondem à perda de habitat e à fragmentação da paisagem.
Cerca de 85% da cobertura original do bioma foi desmatada. Esse cenário fragmenta as populações tanto de predadores quanto de suas presas, o que ocasiona a diminuição dos indivíduos.
Outro fator importante apontado pelo estudo foi a relação entre a pressão humana e a disponibilidade de alimento para os felinos.
As análises mostraram que as populações de presas são maiores em áreas de difícil acesso para humanos, enquanto locais mais acessíveis apresentam abundâncias muito menores. Isso indica que a caça ilegal e a presença humana são fatores que reduzem essas populações, inclusive dentro de áreas de preservação.
Para a pesquisadora, o combate à prática criminosa se mostra como uma alternativa essencial para amenizar o problema:
“Para salvar a onça, precisamos salvar suas presas, que estão declinando mesmo em áreas protegidas. A caça, embora proibida por lei, ainda acontece em grande escala na Mata Atlântica”, alerta Katia.
Segundo a docente da USP, é essencial haver uma fiscalização mais eficiente e o envolvimento comunitário na conservação das espécies. Isso inclui oferecer alternativas socioeconômicas para as populações residentes no entorno das áreas protegidas, para que elas não necessitem explorar o bioma e a sua fauna de forma insustentável.
Dieta adaptável, mas com limites
O estudo também aponta que, embora a onça consiga adaptar parcialmente a sua dieta — consumindo presas menores, como pacas, tatus e quatis, quando os grandes mamíferos estão ausentes —, essa flexibilidade tem limites.
A dependência de presas de grande porte continua sendo essencial para manter a população do felino viável.
Além disso, a pesquisa destaca que a recuperação da espécie não depende apenas da proteção do habitat, mas também da restauração das populações de presas, do combate à caça ilegal e da melhoria da conectividade entre os fragmentos florestais.
Sem essas ações em conjunto, o bioma pode perder o seu principal predador de topo, o que causaria impactos irreversíveis em toda a estrutura ecológica da floresta.