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Fim dos manguezais? A perda de zonas úmidas no planeta já é de quase um quarto em 50 anos

Os danos aos manguezais e mais zonas úmidas do planeta afetam principalmente os países em desenvolvimento, diz um relatório global. No Dia Mundial das Zonas Úmidas, conheça a magnitude desta perda e quais medidas ajudam a reduzir os impactos.

30 de janeiro de 2026
5 min. de leitura
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Vista aérea de um manguezal em Aracruz declarado “morto” por cientistas depois que a região foi atingida por uma forte tempestade de granizo. Aracruz, no Espírito Santo, Brasil. Foto: Victor Moriyama

A perda de zonas úmidas (áreas em que a água é o principal fator que controla o meio ambiente e a vida vegetal e animal associada), tais como estuários, manguezais, lagoas, pântanos e várzeas, é um dos desafios ambientais que o planeta enfrenta atualmente. De acordo com a Perspectiva Global das Zonas Húmidas 2025, um documento elaborado pelo Grupo de Revisão Científica e Técnica (GECT) da Convenção sobre as Zonas Húmidas, o mundo perdeu milhões de hectares destes valiosos ecossistemas nos últimos 50 anos.

O relatório, que oferece a avaliação global mais atualizada sobre a condição, as tendências, o valor e as respostas políticas relativas a esses espaços naturais, alerta que quase um quarto da superfície mundial dos zonas úmidas está degradada.

Essa situação gera efeitos em cascata, desde a diminuição da disponibilidade de água até a estabilidade do clima. Descubra os números exatos de perda e degradação e o que está sendo feito para enfrentar essa situação no Dia Mundial das Zonas Úmidas, comemorado todos os anos em 2 de fevereiro, coincidindo com o aniversário da Convenção sobre as Zonas Úmidas, que foi adotada como tratado internacional.

Como está a perda de zonas úmidas no mundo?

De acordo com o relatório de 2025, estima-se que, desde 1970, “pelo menos 400 milhões de hectares de zonas úmidas foram perdidos”, ou seja, 22% da superfície dessas áreas úmidas do mundo, com uma redução anual contínua de 0,52%. As perdas variam de acordo com a região e o tipo de zona úmida, embora “os ecossistemas de água doce (lagos, pântanos e marismas continentais) sejam os que registram as maiores reduções proporcionais”.

Conforme definido no documento, a perda é entendida como a “redução do espaço onde há água disponível e de qualidade suficiente para que as espécies (e subespécies) dos pântanos se refugiem, se alimentem, descansem e se reproduzam” e é causada por atividades humanas que alteram significativamente as características ecológicas do local.

Além disso, quase um quarto dos hectares mencionados permanece degradado. Ou seja, eles foram alterados, provocando uma simplificação ou alteração de suas características ecológicas e uma redução de sua biodiversidade típica, dos processos ecológicos ou dos serviços ecossistêmicos que prestam.

Embora a perda seja generalizada, existem diferenças entre os diferentes tipos de zonas úmidas e regiões do mundo. De acordo com o relatório, as florestas de algas registram as taxas de declínio mais rápidas, enquanto os estuários apresentam as taxas de mudança mais lentas. Além disso, os países menos desenvolvidos são os que enfrentam o pior cenário, acrescenta a fonte.

As causas da perda de zonas úmidas na América Latina e no mundo

Ainda conforme relata o documento de 2025, os fatores que impulsionam a perda e a degradação dessas áreas naturais são diversos. A poluição urbana, agrícola e industrial; a expansão urbana; o desenvolvimento industrial; a intensificação agrícola; a drenagem; e a introdução e invasão de espécies exóticas não autóctones são alguns dos principais desafios que estes ecossistemas enfrentam.

A erosão, a desertificação e as mudanças climáticas são outros fatores que têm impacto negativo.

No caso da América Latina e do Caribe, mais especificamente, as principais causas de degradação e perda relatadas são a urbanização, o desenvolvimento industrial e o desenvolvimento de infraestruturas.

A perda de zonas úmidas tem um custo econômico elevado

Apesar de ocuparem apenas 6% da superfície terrestre, “as zonas úmidas são fundamentais para a nossa existência”, afirma um documento informativo da Convenção de Ramsar (ou Convenção sobre as Zonas Úmidas).

Esses espaços fornecem água doce, garantem o abastecimento de alimentos, purificam e filtram a água, minimizam os efeitos de tempestades e inundações, armazenam carbono, contribuem para a biodiversidade (abrigam 40% das espécies animais e vegetais conhecidas) fornecem produtos e meios de subsistência sustentáveis, oferecem oportunidades para relaxamento e turismo, entre outros serviços ecossistêmicos, explica um artigo da National Geographic Latinoamérica.

Portanto, os danos a essas áreas naturais se traduzem em consequências decorrentes da redução desses serviços ecossistêmicos e vão desde uma menor disponibilidade de água e biodiversidade até o impacto na estabilidade climática e no bem-estar humano.

“Ao somar os benefícios perdidos anualmente devido à redução das zonas úmidas (aproximadamente 380 milhões de hectares nos países analisados), de 1975 até hoje, estima-se uma perda acumulada de benefícios para a humanidade de 5,1 trilhões de dólares internacionais de 2023 durante os últimos 50 anos”, destaca o relatório. “A maior parte dessa perda deveu-se à destruição de zonas úmidas continentais (lagos, turfeiras e pântanos/marismas)”.

O futuro das zonas úmidas: o que fazer para evitar danos maiores

“Quando gerenciadas de forma eficaz, as 1,4 bilhão de hectares restantes de zonas úmidas prestam serviços ecossistêmicos no valor de até 210,6 trilhões de reais por ano, mais do que qualquer outro tipo de ecossistema”, reconhece a Ramsar. Mas, além das perdas e ganhos econômicos significativos decorrentes de sua boa ou má saúde, o relatório insiste em reconhecer seu “profundo valor intrínseco: seu valor pelo simples fato de existirem como sistemas vivos”.

O relatório insta os formuladores de políticas, as empresas e a sociedade a adotarem medidas urgentes para conter os danos e proteger as zonas úmidas. Para isso, sustenta, é necessário investir nesses sistemas e impulsionar ações imediatas e coordenadas de conservação e restauração.

Algumas das medidas propostas incluem integrar as iniciativas de restauração em diversos setores, como agricultura, infraestrutura hídrica e planejamento urbano; dar prioridade aos resultados econômicos de longo prazo; aumentar o financiamento para a conservação, restauração e manejo sustentável das zonas úmidas; e incorporar subsídios positivos para esses espaços.

“À medida que os atrasos se prolongam, os custos também aumentam”, insiste o documento. De acordo com os cálculos dos especialistas, um atraso de apenas 10 anos nas iniciativas para deter e reverter a perda de biodiversidade “duplica os custos em comparação com a adoção de medidas imediatas”. Por outro lado, as medidas adotadas em favor desses espaços naturais trarão benefícios econômicos e ambientais para todo o planeta.

“É necessária uma vontade política firme, um amplo apoio público e um investimento financeiro significativo”, insiste o documento. E conclui: “Precisamos de uma mudança transformadora que realinhe as finanças, as políticas e os mercados para apoiar a conservação das zonas úmidas”.

Fonte: National Geographic Brasil

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