A 293ª Festa do Glorioso Santo Amaro, dedicada ao padroeiro de Campos dos Goytacazes, no interior do Rio de Janeiro, e tradicionalmente associada à devoção, à fé popular e à celebração comunitária, incorporou à sua programação uma atração que entra em choque direto com esses valores. Após negociações, foi confirmada nesta quinta-feira (08/01) a participação da Companhia de Rodeio Tony Nascimento como atividade recreativa do evento, que segue até o dia 15 de janeiro.
A inclusão do rodeio em uma festividade religiosa é contraditória e impossível de ignorar. Enquanto a celebração exalta princípios como cuidado, respeito e compaixão, a prática do rodeio se sustenta na exploração de animais submetidos a estresse extremo, dor física e sofrimento psicológico para entretenimento humano.
Bois e cavalos explorados nesse tipo de espetáculo são forçados a reagir por meio de instrumentos e métodos que causam desconforto intenso, além de riscos elevados de fraturas, lesões internas e colapsos durante ou após as apresentações. Ainda que organizadores costumem alegar fiscalização e bem-estar, a lógica do rodeio depende da submissão do animal, tratado como objeto descartável.
O problema se agrava quando esse tipo de prática é legitimado em um contexto religioso, conferindo a ela um verniz cultural e moral. Ao ocupar o espaço de uma festa dedicada a um santo, o rodeio deixa de ser apenas uma escolha de entretenimento e passa a carregar a chancela simbólica de uma tradição espiritual, silenciando críticas e normalizando a violência contra seres sencientes.
A fé que mobiliza multidões e atravessa gerações poderia ser aliada de práticas mais éticas, que celebrem a vida em todas as suas formas, sem transformar sofrimento em espetáculo.