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INÚMEROS DANOS

Extremos de seca e cheia se intensificam na Amazônia, e cientistas sugerem cisternas como no semiárido

Pesquisadores reunidos em evento da SBPC, em Belém, apontam secas mais severas e extensas, lagos mais quentes e floresta mais inflamável

13 de julho de 2024
Vinicius Sassine
7 min. de leitura
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Leito seco do rio Solimões próximo a comunidade indígena Porto Praia, em Tefé (AM), devido à seca histórica de 2023 – Lalo de Almeida – 13.out.2023/Folhapress

Um numeroso grupo de cientistas que se reúne em Belém –e cujas carreiras são dedicadas à compreensão dos ciclos e da vida na amazônia– tem um prognóstico duro para o bioma, ancorado em dados de pesquisas científicas que confirmam o novo normal vivenciado por comunidades tradicionais amazônicas.

O campus da UFPA (Universidade Federal do Pará) em Belém vive um momento efusivo ao longo desta semana, com milhares de pessoas, especialmente da própria comunidade acadêmica, circulando pela 76ª reunião anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), que prossegue até sábado (13).

Foram 26,6 mil inscritos para o evento, a maior quantidade já registrada nos encontros da entidade, que nesta edição priorizou os debates sobre as mudanças climáticas e seus efeitos para a amazônia.

Parte dessas pessoas lotou salas e auditórios do campus, que margeia o rio Guamá, para ouvir o prognóstico da ciência para a região, que passou por uma assustadora seca em 2023, a pior já registrada.

De uma infinidade de dados, estudos e monitoramentos feitos, emerge um cenário de um bioma em transformação, com um aumento na frequência e intensidade de eventos climáticos extremos.

De tudo que foi apresentado e discutido até agora, um resumo pode ser feito: houve recorde de cheias desde 2009, com uma maior concentração de chuvas na porção norte; as secas estão mais extensas e mais severas, com mais dias secos na porção sul.

Além disso, os lagos amazônicos estão mais quentes; a floresta está mais inflamável; e o fluxo de carbono se aproxima de zero —ou seja, a floresta está liberando quase o mesmo tanto carbono que consegue absorver, perdendo sua capacidade de agir como um sumidouro do gás que aquece a atmosfera.

É uma realidade tão consolidada, na visão da ciência, que pesquisadores sugerem urgência na adoção de medidas de adaptação e mitigação, voltadas a um bem-estar mínimo de comunidades que dependem dos ciclos naturais de cheias e vazantes.

Entre essas medidas, estão o maior envolvimento das Defesas Civis dos estados amazônicos, como forma de contornar o isolamento involuntário, e a construção de cisternas para captação e armazenamento de água da chuva.

Em 2023, a seca foi extrema. Rios como o Negro, Solimões, Amazonas e Madeira atingiram suas mínimas históricas. Comunidades ficaram isoladas, sem água e acesso a comida. Roças se perderam pelo aquecimento excessivo do solo. O fenômeno das terras caídas, com a queda de barrancos e casas, se multiplicou. Ondas de fumaça invadiram cidades diversas da Amazônia ocidental.

No ciclo da seca em 2024, iniciado em junho com o princípio da vazante dos rios, comunidades, cidades e governos temem a repetição do que ocorreu no ano passado, em razão do menor nível dos rios para o período —a cheia não foi suficiente para a recuperação do nível médio dos rios, em razão do momento extremo vivido.

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