Populações atuais de baleias, garoupas e peixes-boi carregam as marcas da exploração histórica na costa brasileira, que resultou em redução populacional, diminuição de tamanho, além de mudanças comportamentais e no papel ecológico desempenhado pelas espécies. É o que mostra um estudo conduzido pelas pesquisadoras Carine Fogliarini e Mariana Bender, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), publicado em novembro na revista Ocean & Coastal Management
Para reconstruir a trajetória da megafauna marinha no Atlântico Sudoeste, que banha parte da costa brasileira, a equipe analisou mais de 200 documentos históricos sobre a fauna vertebrada da região. Foram inúmeras visitas aos acervos de museus como o Museu Nacional e a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, além do Instituto Ricardo Brennand e da Fundação Joaquim Nabuco, em Recife, e buscas em acervos digitais. O material reuniu livros, relatórios, periódicos, desenhos, pinturas e fotografias produzidos entre 1500 e 1911. Esses registros sobre o passado populacional de baleias, garoupas e peixes-boi foram comparados com estatísticas atuais de desembarque registradas em relatórios pesqueiros.
Os documentos analisados revelam mais de 380 anos de caça às baleias, prática que só foi proibida em 1986. A atividade era impulsionada pela demanda por óleo, ossos e outros produtos amplamente usados no cotidiano da época. A pressão sobre as garoupas também foi intensa: registros de 1870 apontam desembarques entre 2,5 e 3,2 mil toneladas em uma única região. “Como têm crescimento lento e são muito vulneráveis durante a reprodução, as populações atuais de garoupas refletem esse impacto histórico; ficaram menores, mais jovens e menos resilientes”, aponta Carine Fogliarini.
Já a caça ao peixe-boi, voltada tanto para a alimentação quanto para a extração de derivados, ganhou força no início dos anos 1800 e continuou a crescer ao longo do século 20, resultando em forte declínio populacional e na proibição da prática em 1973. “O oceano brasileiro já foi muito mais rico do que enxergamos hoje”, salienta Fogliarini. “Espécies que hoje consideramos raras eram abundantes e faziam parte do cotidiano das pessoas”, diz a pesquisadora, destacando que o declínio começou antes mesmo do início das estatísticas oficiais. Para os peixes-boi, por exemplo, os primeiros dados formais datam de 1851.
A exploração histórica também trouxe consequências para as características físicas de grupos de peixes da costa brasileira. Espécies como o camurupim (Megalops atlanticus) e o beijupirá (Rachycentron canadum) passaram a apresentar tamanhos menores, possivelmente devido à pressão seletiva da pesca sobre indivíduos maiores. Segundo o estudo, os exemplares atuais são, em média, 64% menores que os indivíduos documentados nos registros históricos – de 365 centímetros de comprimento para cerca de 130 centímetros nos camurupins e de 304 centímetros para 110 centímetros nos beijupirás.
Os achados indicam que outras pressões têm se somado à caça mesmo após o fim das capturas comerciais de peixes-boi e baleias. Apesar do fim da caça, baleias e peixes-boi enfrentam hoje ameaças como colisões com embarcações, perda de habitat, ruído submarino e mudanças climáticas.
Fogliarini defende que as leis em vigência precisam ser atualizadas para refletir os desafios modernos enfrentados pela fauna marinha. “Nosso trabalho ajuda a mostrar que os dados recentes, sozinhos, não contam toda a história”. Ela destaca que, para entender como as populações mudaram ao longo do tempo e quais são os cenários possíveis de recuperação, é possível e necessário combinar informações históricas com dados modernos e modelagem ecológica. “Só conseguiremos planejar a conservação de forma realista quando entendermos o que se perdeu, o que ainda pode ser recuperado e qual era o papel dessas espécies nos ecossistemas”, conclui.
Fonte: Revista Galileu