Os Estados Unidos anunciaram a retirada do país de tratados e organizações internacionais voltados ao clima, energia limpa, desenvolvimento sustentável e cooperação global.
A decisão, liderada pelo presidente Donald Trump, inclui a saída da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) — o principal tratado internacional para enfrentar a crise climática — além de outras 65 agências e comissões. O governo federal norte-americano não participou da COP30, realizada em Belém.
“Hoje, o Presidente Donald J. Trump assinou um Memorando Presidencial determinando a retirada dos Estados Unidos de 66 organizações internacionais que não servem mais aos interesses americanos”, informou a Casa Branca.
A informação foi detalhada em reportagem publicada pelo The Guardian, que destacou a reação de indignação de especialistas que classificaram a saída como “constrangedora” para a posição dos Estados Unidos no cenário climático global. A ex-principal assessora climática da Casa Branca no governo Joe Biden, Gina McCarthy fez críticas.
“É uma decisão ‘míope, constrangedora e tola’, que joga fora décadas de liderança climática e cooperação internacional dos EUA”, disse McCarthy.
Paralelamente, o site ESG Today contextualizou que a retirada faz parte de uma estratégia mais ampla, que determinou ao secretário de Estado Marco Rubio a revisão da participação americana em organismos intergovernamentais. Segundo Rubio, os compromissos abandonados seriam “contrários aos interesses dos Estados Unidos” e estariam inseridos em uma estrutura de governança global “dominada por ideologia progressista”.
A UNFCCC, criada há 34 anos e ratificada pelo Senado norte-americano em 1992, foi a base para acordos climáticos históricos, como o Protocolo de Kyoto (1997), que impôs metas de redução de emissões a países industrializados, e o Acordo de Paris (2015), em que nações se comprometeram a limitar o aquecimento global a bem abaixo de 2°C acima dos níveis pré-industriais.
A saída formal dos Estados Unidos da UNFCCC foi interpretada por pesquisadores e analistas, ouvidos pelo The Guardian, como um movimento que enfraquece a cooperação multilateral em um momento crítico para o planeta. Presidente do Natural Resources Defense Council, Manish Bapna disse que a decisão representa um “erro não forçado” e uma escolha “autossabotadora”, que reduz a capacidade do país de competir em setores estratégicos da economia de energia limpa.
Além da convenção-quadro, a ordem presidencial determina a retirada americana de instituições como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) — principal órgão científico da ONU sobre clima — e a Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA), além de pactos como o 24/7 Carbon-Free Energy Compact, a Aliança Solar Internacional, a Comissão para Cooperação Ambiental e outras entidades ligadas ao clima, biodiversidade e desenvolvimento sustentável, segundo levantamento do ESG Today.
Organizações ambientais reagiram com críticas severas à medida. A diretora executiva do Environmental Defense Fund, Amanda Leland, declarou ao ESG Today que a retirada “vai prejudicar o povo americano e as empresas”, ao transferir a liderança climática para outros países e deixar os Estados Unidos sem voz em decisões globais estratégicas.
Autoridades de outras nações também expressaram preocupação. O comissário europeu para Clima, Neutralidade de Carbono e Crescimento Limpo, Wopke Hoekstra afirmou, em declaração reproduzida pelo ESG Today, que a UNFCCC “sustenta a ação climática global” e que a decisão dos EUA — a maior economia do mundo e o segundo maior emissor de gases de efeito estufa — de se afastar dessa estrutura multilateral é “lamentável e infeliz”.
O enfraquecimento do multilateralismo ocorre em um contexto de agravamento dos impactos climáticos, como ondas de calor, secas prolongadas, incêndios de grande magnitude e tempestades extremas que já vêm alterando economias e padrões sociais globalmente. O aumento de desastres climáticos tem pressionado seguradoras, afetado o mercado imobiliário e elevado custos para governos locais e federais.
O abandono das instituições internacionais foi atribuído por críticos à influência de setores ligados aos combustíveis fósseis. Em entrevista ao The Guardian, o ex-vice-presidente americano Al Gore afirmou que o governo Trump “tem virado as costas para a crise climática desde o primeiro dia”, desmontando a infraestrutura científica do país e encerrando investimentos essenciais na transição energética.
“Para que bilionários acumulem ainda mais dinheiro enquanto poluem o planeta e colocam pessoas em risco nos Estados Unidos e no mundo”, apontou Al Gore.
Especialistas também destacaram incertezas jurídicas em torno da retirada da UNFCCC, já que o tratado foi sancionado pelo Senado, o que pode dificultar uma saída unilateral.
Fonte: Um só Planeta