Um estudo publicado na revista Proceedings of the Royal Society B revelou que rainhas da abelha mamangava podem respirar debaixo d’água enquanto passam o inverno no solo, uma habilidade inesperada para um inseto terrestre. A descoberta ajuda a explicar como esses polinizadores conseguem sobreviver quando o solo fica encharcado por chuvas ou pelo derretimento da neve.
Mais de 80% das espécies de abelhas fazem ninhos subterrâneos. No caso das mamangavas, apenas as novas rainhas sobrevivem ao inverno. Elas permanecem enterradas em um estado de dormência chamado diapausa, semelhante à hibernação, até a chegada da primavera, quando fundam novas colônias.
Durante esse período, no entanto, o solo pode ficar saturado de água. Cientistas já sabiam que algumas rainhas conseguiam sobreviver a esse risco, mas o mecanismo ainda não estava claro.
A pista surgiu por acaso. A bióloga da conservação Sabrina Rondeau, então na University of Guelph, estudava os efeitos de pesticidas no solo sobre a espécie Bombus impatiens quando percebeu que alguns tubos de experimento haviam se enchido de água dentro de uma geladeira de laboratório. As rainhas ficaram completamente submersas, e, para surpresa da pesquisadora, continuaram vivas.
Em experimentos posteriores, as cientistas mantiveram rainhas em condições que simulavam o inverno e as deixaram submersas por até oito dias. Depois de retornarem ao solo seco, cerca de 90% sobreviveram.
Para entender como isso era possível, Rondeau passou a colaborar com o fisiologista ecológico Charles Darveau, da University of Ottawa. Os testes mostraram que a concentração de oxigênio na água diminuiu significativamente nos recipientes que continham as abelhas, enquanto níveis constantes de dióxido de carbono eram liberados.
O resultado indica que as rainhas realmente estavam trocando gases com a água, ou seja, respirando mesmo submersas.
“É a primeira vez que se mostra que um inseto terrestre como uma mamangava consegue obter oxigênio diretamente da água”, afirmou ao site da Smithsonian Magazine, o fisiologista ambiental Jon Harrison, da Arizona State University, que não participou do estudo,
Os pesquisadores também identificaram sinais de metabolismo anaeróbico, processo que permite gerar energia sem oxigênio. Níveis elevados de lactato nas abelhas submersas indicam que as rainhas recorrem a esse mecanismo como complemento quando estão debaixo d’água.
A combinação dessas duas estratégias — respiração aquática e metabolismo anaeróbico — parece permitir que as mamangavas suportem períodos de inundação no solo durante o inverno.
Agora, os cientistas tentam entender exatamente como ocorre essa respiração. Uma hipótese é que as abelhas mantenham pequenas bolhas de ar presas ao corpo, funcionando como uma espécie de “brânquia física”, semelhante ao mecanismo usado por alguns insetos aquáticos.
O achado também levanta novas questões para a conservação das abelhas. Pesquisadores apontam que os esforços de proteção costumam focar na disponibilidade de flores na primavera e no verão, enquanto as condições de sobrevivência no inverno ainda são pouco consideradas.
Fonte: Um só Planeta