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AMEAÇADOS

Espécie à beira do colapso: governo chileno suspende proteção aos pinguins-de-humboldt

A medida de proteção foi suspensa em meio à pressão de projetos econômicos em áreas que concentram a maior população reprodutiva da espécie no país.

21 de março de 2026
Redação ANDA
3 min. de leitura
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Foto: Cesar Villarroel/Capitanexplorasub

O pinguim-de-humboldt, já classificado como espécie em perigo de extinção após perder cerca de 50% de sua população em poucas décadas, enfrenta agora a fragilização de sua própria proteção legal. A suspensão de medidas ambientais pelo governo chileno amplia o risco sobre uma espécie que já luta contra a perda de habitat, doenças e impactos da ação humana.

Recentemente, o governo do presidente José Antonio Kast decidiu suspender a declaração que reconhecia o pinguim-de-humboldt como monumento natural, o que proibia práticas como captura, maus-tratos e morte desses animais em todo o território nacional. A decisão acendeu o alerta entre especialistas.

“Essa medida é incoerente. Não só contradiz compromissos nacionais e internacionais em matéria de biodiversidade, como também transfere o risco de forma desproporcional para uma espécie já ameaçada”, criticou Guillermo Luna, especialista em aves marinhas da Universidade Católica do Norte.

Para pesquisadores, o cenário é ainda mais preocupante diante do histórico recente. “Houve uma redução populacional no país de cerca de 50% nos últimos 10 ou 20 anos, o que é uma diminuição muito rápida”, explicou Alejandro Simeone, do Instituto One Health da Universidade Andrés Bello, em Santiago, Chile. Além da destruição de habitat, fatores como gripe aviária e captura acidental têm acelerado o declínio.

A proteção agora suspensa era vista como essencial. “Declará-lo monumento natural reconhece seu alto valor ecológico e busca garantir sua proteção a longo prazo”, destacou Yacqueline Montecinos, da WWF Chile.

Essa decisão do novo governo também não foi feita de forma isolada. Cerca de 40 medidas ambientais adotadas anteriormente estão sob revisão. “É preocupante o sinal de possíveis retrocessos em questões ambientais”, afirmou a ex-ministra Maisa Rojas, lembrando que a função do Ministério do Meio Ambiente é justamente proteger a natureza.

Esse contexto de incerteza se soma a uma disputa antiga envolvendo interesses econômicos em áreas críticas para a sobrevivência da espécie.

Em 23 de fevereiro, o Tribunal de Justiça de Antofagasta confirmou a rejeição do projeto minerador-portuário Dominga, um dos empreendimentos mais controversos do país. Previsto para operar a poucos quilômetros do Arquipélago de Humboldt, onde vive cerca de 80% da população reprodutiva desses pinguins, o projeto foi barrado por seus impactos ambientais.

“A empresa se recusou a aceitar as rejeições, apresentando repetidamente diferentes ações judiciais, uma questão que se arrasta desde 2017. O projeto não conta com o apoio da comunidade científica nem de grande parte da comunidade local”, afirmou Tania Rheinen, da Oceana no Chile, citando ainda denúncias de conflitos de interesse e corrupção.

O Arquipélago de Humboldt, formado por ilhas e ilhotas que abrigam cerca de 560 espécies marinhas, é um dos ecossistemas mais ricos do país e também um dos mais ameaçados. “O projeto foi rejeitado por ser incompatível com o meio ambiente e com os empregos sustentáveis desenvolvidos na região”, reforçou Rheinen.

Agora, com a combinação de pressão econômica e enfraquecimento de políticas ambientais, especialistas alertam que o futuro do pinguim-de-humboldt depende cada vez mais de decisões políticas e que qualquer retrocesso pode ser irreversível para uma espécie já à beira do desaparecimento.

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