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CONSEQUÊNCIAS

Entenda qual seria o pior cenário climático para a Antártida, segundo estudo

Em novo estudo, pesquisadores da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, modelaram cenários para o futuro climático da Antártida

23 de fevereiro de 2026
Giovanna Gomes
5 min. de leitura
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Foto: Getty Images

Um dos aspectos mais urgentes da crise climática envolve o derretimento das calotas polares da Antártida e até que ponto seus efeitos ainda podem ser contidos pelas ações humanas.

A situação na Península Antártica é considerada especialmente delicada. Por isso, pesquisadores da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, modelaram cenários que vão dos mais otimistas aos mais pessimistas para o futuro climático da região. Os resultados foram publicados na revista científica Frontiers in Environmental Science.

A autora principal do estudo, Bethan Davies, afirma que o destino do continente gelado depende diretamente das escolhas cotidianas feitas pela humanidade. A lógica é clara: quanto maior a emissão de gases poluentes, maior o risco de perda de gelo marinho, colapso de plataformas glaciais inteiras e impactos severos sobre espécies emblemáticas, como os pinguins. Por outro lado, a redução das emissões pode limitar os danos e preservar parte dos ecossistemas.

Mesmo em cenários mais favoráveis, porém, algumas consequências já são inevitáveis. O objetivo do trabalho, segundo os pesquisadores, é demonstrar que a gravidade das transformações ainda pode ser atenuada por políticas ambientais e mudanças de comportamento.

“Embora a Antártida esteja muito longe, as mudanças que ocorrem aqui impactarão o resto do mundo por meio de alterações no nível do mar, nas conexões oceânicas e atmosféricas e nas mudanças de circulação. As mudanças na Antártida não ficam restritas à Antártida”, explicou Davies em comunicado.

Segundo o portal Galileu, o estudo em questão reúne décadas de observações contínuas realizadas na região.

Monitorando efeitos

Os cientistas se reunira em um centro que combina atividades de pesquisa, turismo e pesca, localizado em uma área estratégica que permite acompanhar, ao longo do tempo, os efeitos do aquecimento global sobre o ecossistema local.

Entre os integrantes da equipe está Peter Convey, do British Antarctic Survey. Ele recorda sua primeira visita ao continente, entre novembro de 1989 e abril de 1991, quando a paisagem ainda parecia dominada pelo gelo. “Para um visitante ocasional, a primeira impressão ainda é a de que a região é dominada pelo gelo”, relatou. “No entanto, para aqueles que têm o privilégio de retornar várias vezes [como eu], as mudanças ao longo do tempo são muito claras.”

Diferentemente de estudos anteriores, que projetavam cenários associados a um aquecimento global de 1,5 °C, os dados mais recentes buscam retratar como será, de fato, um mundo que se aproxima rapidamente desse limiar, e as perspectivas são preocupantes.

Para isso, os pesquisadores analisaram oito componentes ambientais da Antártida: ecossistemas marinhos e terrestres, gelo marinho e continental, plataformas de gelo, o Oceano Antártico, a atmosfera e a ocorrência de eventos extremos, especialmente ondas de calor. Cada um desses elementos foi avaliado sob diferentes trajetórias de emissões: um cenário de baixas emissões (que levaria a um aquecimento de cerca de 1,8 °C até 2100), outro de emissões médio-altas (3,6 °C) e um cenário extremo, com emissões muito elevadas (4,4 °C).

Possíveis consequências

As consequências projetadas já são relativamente conhecidas pela comunidade científica. Em cenários de maior emissão, os oceanos aquecerão mais rapidamente, aumentando a probabilidade de colapso das plataformas de gelo e acelerando a elevação do nível do mar.

Nesse mesmo contexto, a cobertura de gelo marinho poderá diminuir em até 20%, afetando diretamente espécies que dependem dessa estrutura para sobreviver. Um dos organismos mais vulneráveis é o krill, pequeno crustáceo fundamental na cadeia alimentar local. Sem o gelo que lhe serve de abrigo, ele se torna presa mais fácil para baleias, pinguins e outros predadores.

>A retração do gelo também tende a intensificar o aquecimento das águas, gerando pressão adicional sobre os ecossistemas marinho e terrestre. Ainda assim, os cientistas reconhecem que é difícil prever exatamente como essas mudanças vão interagir entre si e quais serão os efeitos combinados sobre a fauna.

Entre as hipóteses analisadas está a migração de diversas espécies para latitudes mais ao sul, na tentativa de escapar de temperaturas mais altas. Predadores de sangue quente podem tolerar melhor essas variações, mas sua sobrevivência dependerá da capacidade de adaptação de suas presas. Caso contrário, poderão enfrentar escassez de alimento.

Eventos climáticos extremos

Outro fator de incerteza envolve o aumento de eventos climáticos extremos. As próprias transformações ambientais já começam a dificultar a continuidade das pesquisas, tornando a infraestrutura científica mais vulnerável e o trabalho de campo mais arriscado, além de alterar os habitats que precisam ser monitorados.

Embora os números apresentados sejam simplificações de futuros possíveis, os pesquisadores enfatizam que ainda há margem para evitar os cenários mais severos. Segundo Davies, o mundo atualmente parece seguir uma trajetória de emissões entre médias e médio-altas. Um cenário de emissões mais baixas, no entanto, significaria que o gelo marinho do inverno seria apenas ligeiramente menor do que hoje, e que a contribuição da península para o aumento do nível do mar se limitaria a alguns milímetros. A maioria das geleiras continuaria reconhecível, sustentada por suas plataformas de gelo.

O que torna o momento decisivo é que, sob níveis mais altos de emissões, parte dos danos poderá se tornar permanente. Davies alerta que muitas dessas mudanças seriam irreversíveis em qualquer escala de tempo humana, tornando extremamente difícil regenerar geleiras ou restaurar a vida selvagem característica da região. Se nenhuma ação for tomada agora, conclui a pesquisadora, as consequências recairão sobre as próximas gerações.

Fonte: Aventuras na História

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