A onça-pintada é o maior felino das Américas e o terceiro maior do mundo, atrás apenas do tigre e do leão. Com a maior população da espécie concentrada no Brasil, sua presença é um indicativo da saúde das florestas onde vive.
“Como predador de topo, ela depende de cadeias alimentares completas e de grandes áreas contínuas de habitat. Sua sobrevivência implica a existência de presas abundantes, cobertura vegetal preservada e baixa pressão antrópica—ou seja, condições ecológicas saudáveis”, explica Ludmilla Moura de Souza Aguiar, professora do departamento de Zoologia da Universidade de Brasília (UnB).
Esse equilíbrio tem tudo a ver com a forma como a energia circula no ecossistema. A professora Morgana Bruno, doutora em Ecologia e professora da Universidade Católica de Brasília (UCB), explica que a saúde de um ambiente pode ser avaliada pela maneira como os recursos produzidos pelas plantas são repassados aos outros seres vivos.
“A cada nível da cadeia alimentar, parte da energia é usada ou perdida. Quando encontramos grandes carnívoros, que ocupam o topo da cadeia alimentar, isso indica que o ecossistema tem uma alta produção primária, capaz de sustentar esses animais mesmo com as perdas naturais de energia ao longo da cadeia”, afirma a especialista.
Ou seja, onde há onça-pintada, há uma floresta rica e funcional, com presas suficientes e vegetação preservada—um sinal claro da importância de proteger esses ambientes.
Impacto da perda da onça-pintada no equilíbrio das florestas
A ausência da onça-pintada em um ecossistema pode desencadear uma série de desequilíbrios ecológicos. “A extinção local da onça pode levar ao aumento descontrolado de herbívoros e predadores de médio porte, os chamados mesopredadores”, explica Ludmilla.
Sem a presença desse grande felino para regular as populações, os herbívoros podem se multiplicar excessivamente, causando sobrepastoreio e dificultando a regeneração da vegetação. “Isso pode gerar um efeito cascata, comprometendo a biodiversidade e até os serviços ecossistêmicos, como a manutenção dos cursos d’água e o equilíbrio do solo”, acrescenta a pesquisadora.
Impactos positivos da onça-pintada em diferentes biomas
No Pantanal, o aumento da população do felino tem ajudado a controlar a quantidade de capivaras e outros herbívoros, preservando a vegetação e mantendo o equilíbrio ecológico.
Na Amazônia, projetos de proteção da onça contribuem para a conservação de grandes áreas de floresta, beneficiando outras espécies e ajudando a reduzir o desmatamento.
Já na Mata Atlântica, iniciativas de reintrodução da onça-pintada fortalecem corredores ecológicos, permitindo que diversas espécies circulem livremente e preservem a diversidade genética.
Na Reserva Biológica do Tinguá, no Rio de Janeiro, o aumento da população de onças tem ajudado a restaurar o equilíbrio entre predadores e presas, favorecendo tanto a fauna quanto a vegetação local.
As principais ameaças à onça-pintada e às florestas
Apesar da importância ecológica da onça-pintada, sua sobrevivência está ameaçada por diversos fatores. Segundo Morgana, a destruição do habitat é uma das principais preocupações. “A conversão de florestas em áreas para pecuária e agricultura reduz o território da onça e dificulta sua busca por alimento”, explica.
Outro problema é a fragmentação dos ecossistemas por rodovias e cidades. “Isso não só diminui as áreas disponíveis para a espécie, mas também aumenta os casos de atropelamento desses animais”, alerta a pesquisadora. Além disso, a caça, incluindo a prática de caça esportiva, continua a ser uma ameaça grave, colocando em risco tanto a espécie quanto o equilíbrio dos ecossistemas onde ela vive.
Proteger a onça-pintada, portanto, não é apenas garantir a sobrevivência do maior felino das Américas, mas também preservar as florestas e todo o ciclo de vida que depende delas.
Fonte: Metrópoles