As populações de peixes migradores de água doce estão “em colapso”, tendo sido reduzidas em cerca de 81% desde a década de 1970, uma das maiores quedas alguma vez registadas nos grandes grupos de vertebrados do planeta.
O alerta é lançado num relatório publicado esta terça-feira e apresentada no âmbito da 15.ª cimeira global da Convenção das Nações Unidas sobre as Espécies Migradoras (COP15), que está a decorrer na cidade de Campo Grande, no Brasil.
Por isso, algumas das mais longas e mais importantes migrações de peixes de água doce, fundamentais para o bom funcionamento dos rios e dos ecossistemas que deles mais dependem, bem como para a subsistência de várias comunidades humanas, estão em risco e em rápido declínio.
A análise fala de uma “crise de biodiversidade amplamente ignorada” e identifica 325 espécies que devem ser urgentemente protegidas através de esforços internacionais, designadamente através da sua inclusão nos apêndices da convenção das espécies migradoras: 205 da Ásia, 55 da América do Sul, 42 de África, 50 da Europa e 32 da América do Norte.
Entre os principais rios que devem ser alvo de proteção, para travar o declínio dos peixes migradores de água doce, estão o Amazonas e o La Plata na América do Sul, o Danúbio na Europa, o Mekong na Ásia, o Nilo em África e o Ganges no sudeste asiático.
Com base na análise do estado de conservação de quase 15 mil espécies de peixes de água doce, o relatório, que tem como primeiro autor Zeb Hogan, professor da Universidade do Nevada, nos Estados Unidos da América, e também conhecido pelos seus documentários sobre vida selvagem, conclui que 97% ds 58 espécies migradoras de peixes listados da convenção (incluindo de água doce e de água salgada) estão ameaçadas de extinção.
“Muitas das grandes migrações de vida selvagem do mundo acontecem debaixo de água”, aponta Hogan. “Esta avaliação mostra que os peixes migradores de água doce estão em grave perigo e que protegê-los exigirá que os países trabalhem juntos para manter os rios conectados, produtivos e repletos de vida.”
Grandes rios da América do Sul em risco
A COP da Convenção de Espécies Migradoras acontece este ano no Brasil, cujo governo, anfitrião do encontro, está a propor várias medidas de conservação para proteger a vida no Amazonas e no La Plata.
A bacia do Amazonas é considerada um dos últimos grandes redutos de peixes migradores de água doce, mas a intensificação das pressões humanas, como o desenvolvimento de infraestruturas, está a ameaçar esse porto de abrigo.
Um caso de estudo publicado juntamente com o relatório revela que 20 espécies migradoras de peixes do Amazonas são elegíveis para inclusão no Apêndice II da convenção, que integra espécies com estados de conservação desfavoráveis e cuja conservação precisa de cooperação internacional.
É no Amazonas também que vive um dos maiores migradores do mundo, e que não existe em mais lado algum: o bagre da espécie Brachyplatystoma rousseauxii. Com uma pele de tons metálicos e reflexos prateados e dourados, esse peixe pode chegar aos dois metros de comprimento, e realiza uma das maiores migrações de todos os peixes de água doce: percorre cerca de 11 mil quilómetros, desde os Andes até a zonas de berçário na costa.
O Brasil está também a propor a listagem do Pseudoplatystoma corruscans no Apêndice II, uma espécie que vive no La Plata, mas está ameaçada por barreiras, como barragens, por alterações no fluxo das correntes e pelo aumento da pressão da pesca.
Por tudo isso, e porque não conhecem fronteiras, os especialistas defendem que os rios devem ser geridos como sistemas ecológicos em vez de como cursos de água nacionais e isolados.
“Esta nova avaliação destaca como uma prioridade fundamental a conservação de espécies migradoras e dos seus habitats, que, até à data, não têm recebido a devido atenção”, sentencia Amy Fraenkel, secretária-executiva da Convenção das Nações Unidas sobre as Espécies Migradoras.
“Ao alinhar ciência, políticas e cooperação internacional, os governos podem salvaguardar as grandes migrações de peixes de água doce que ainda restam no mundo, bem como as comunidades e ecossistemas que delas dependem”, avisa.
Fonte: Greensavers