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CLIMA EXTREMO

Do mar à terra, passando pelos céus: Como as tempestades afetam a vida selvagem

Perceber como os animais selvagens lidam com estas catástrofes poderá ajudar-nos a refletir sobre a forma como a nossa espécie com elas lida e até a encontrar inspiração para possíveis soluções, em particular numa altura em que tanto se fala das soluções de base natural como eixo central dos esforços de adaptação climática.

17 de fevereiro de 2026
Filipe Pimentel Rações
11 min. de leitura
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Um das centenas de papagaios-do-mar que arrojaram na costa portuguesa em fevereiro, no decurso das tempestades sucessivas que têm assolado o país nas últimas semanas. Foto: Hany Alonso / SPEA

O “comboio de tempestades” que durante semanas atingiu Portugal deixou no seu encalço um rasto de devastação. Casas destruídas, estradas e outras vias arruinadas e já 16 pessoas morreram desde que a 28 de janeiro a tempestade Kristin se abateu sobre o território nacional.

No entanto, as intempéries, mais inclementes e frequentes à medida que o planeta se torna mais quente, afetam não só os mundos humanos, mas também os dos animais selvagens.

Desde 25 de janeiro, e com maior intensidade no mês de fevereiro, centenas de aves marinhas têm dado à costa portuguesa, de norte a sul do país. À Green Savers, Hany Alonso, técnico sénior de Ciência da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), diz que desde que a tempestade Kristin entrou em Portugal foram já registados mais de 400 papagaios-do-mar arrojados, a maior parte dos quais no litoral norte e na região de Peniche.

Segundo dados de parceiros internacionais, também na Galiza foram registados mais de 500 papagaios-do-mar arrojados e mais de 200 ao longo da costa francesa.

No que toca a Portugal, “os números de aves afetadas poderão ser muitíssimo mais altos, pois estamos a monitorizar uma parte muito pequena da nossa costa”, acautela o ornitólogo, acrescentando que mais arrojamentos são de esperar, pois “as condições continuam difíceis no mar”.

Já no inverno de 2022 para 2023, também fruto de tempestades, em duas semanas registaram-se mais de 1.700 arrojamentos de papagaios-do-mar na costa continental portuguesa, “que já foi um grande impacto nas populações desta espécie”, explica Alonso. Apesar de pequenas, essas aves estão habituadas a lidar com mares revoltosos e são “bastante resistentes”, podendo deslocar-se para áreas mais afastadas da costa até o temporal passar.

“O problema surge quando há muitas tempestades consecutivas, que dificultam a sua alimentação e deterioram a condição física das aves”, explica o ornitólogo da SPEA.

“Muitos dias com um mar difícil pode acabar por levar à mortalidade massiva de muitos indivíduos”, salienta, acrescentando que “começam a ficar mais fracos e vão-se aproximando mais de terra e acabam por arrojar nas praias, alguns vivos, mas uma grande parte já mortos”.

Além dos papagaios-do-mar, foram também registados arrojamentos de aves marinhas de outras espécies, como as tordas-miúdas, as gaivotas-tridáctilas, as gaivotas-de-patas-amarelas, os corvos-marinhos, as gaivotas-de-asa-escura e as galhetas. Ainda que essas aves estejam habituadas a lidar com mares tempestuosos, procurando abrigos mais perto da costa ou mesmo em terra, a sua resistência tem limites e, se as más condições se mantiverem durante muito tempo, acabam por sucumbir por não se conseguirem alimentar devidamente.

Embora a maior parte dos animais tenha dado à costa já sem vida, alguns ainda resistiam, tendo sido encaminhados prontamente para centros de recuperação de fauna selvagem. A esperança é que possam recuperar e regressar ao seu habitat natural.

Os impactos das tempestades, como as que temos tido, nas aves marinhas variam consoante a espécie e a idade dos indivíduos, sendo que os mais jovens e os mais fracos são, regra geral, os mais vulneráveis às intempéries. No entanto, eventos de mortalidade massiva podem abranger muitos outros indivíduos, com impactos severos para as populações da sua espécie.

As aves marinhas são um dos grupos de aves mais ameaçados em todo o mundo e estão cada vez mais pressionadas por uma miríade de fatores, como a captura acidental em redes de pesca, a poluição, a perda de habitat e de presas e as espécies invasoras. Assim, num contexto de crise climática e em linha com o que é dito pela Ciência, as tempestades, como as das últimas semanas, tornar-se-ão mais frequentes e mais intensas, e, por isso, “o impacto nas aves marinhas será grande”.

Como avisa Maria Dias, professora na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e investigadora do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C), “períodos longos de tempestades geralmente afetam as aves marinhas por dificultarem a obtenção de alimento, levando, por isso, à emaciação e, por vezes, à morte”.

Como tal, Hany Alonso, da SPEA, realça a importância de monitorizar estes eventos de arrojamento em massa e tentar perceber os seus impactos, especialmente nas espécies mais afetadas, como os papagaios-do-mar, “uma espécie que as pessoas geralmente desconhecem que ocorre nos mares portugueses”.

Quando se encontra uma ave arrojada ainda viva, os especialistas dizem que o mais importante é contactar o serviço ambiental da GNR, o SEPNA, ou o ICNF, para que o animal seja encaminhado para um centro de recuperação.

“Caso seja a própria pessoa a transportar a ave para um centro de recuperação, deve evitar o contacto direto com a ave, usando luvas ou uma peça de roupa, colocar a ave numa caixa de cartão e transportar a ave o mais rapidamente para o centro mais próximo. Não tentem alimentar ou dar água à ave, pois o ideal será que seja avaliada no centro onde lhe poderão prestar os cuidados adequados”, explica o técnico da SPEA.

Sob as ondas

Os impactos das tempestades vão além das aves. Também os animais que vivem sob a superfície das águas marinhas podem sentir os seus efeitos.

Uma vez mais, as consequências das tempestades e da agitação marítima associada dependem da espécie. Como nos explicam Alicia Quirin e Patrícia Nogueira, da Associação para a Investigação do Meio Marinho (AIMM), aquelas que dependem mais de habitats costeiros, em particular de zonas de águas pouco profundas, podem ter mais dificuldades em encontrar alimento por causa da agitação do mar.

“A ação das ondas pode também causar perturbações físicas nos fundos marinhos, causando danos em habitats mais frágeis ou a ressuspensão de sedimentos, que podem afetar algas e invertebrados e, consequentemente, toda a rede alimentar associada”, detalham, em resposta enviada por e-mail.

Devido aos ventos fortes e a mares revoltosos, algumas aves e mamíferos marinhos podem ter de gastar mais energia para se deslocarem de um lado para o outro, o que pode pôr em risco a sua sobrevivência. No caso dos golfinhos, por exemplo, “podem ocorrer dificuldades na navegação, sobretudo em animais mais jovens ou fragilizados”, mas, de forma geral, “estão bem-adaptados para sobreviver num ambiente dinâmico e com condições por vezes adversas”, dizem Alicia Quirin e Patrícia Nogueira.

Como tal, é expectável que os golfinhos e outros mamíferos marinhos sejam capazes de lidar com os efeitos nos mares lançados por tempestades como as que temos enfrentado nos últimos tempos.

Para já não há registo, além das aves marinhas, de mortalidade de animais marinhos associada diretamente às tempestades das últimas semanas. As especialistas da AIMM dizem-nos também que, nestas circunstâncias, é provável que animais já mortos possam acabar por chegar à costa, “mas isso não significa obrigatoriamente que a causa de morte esteja relacionada com as condições meteorológicas”.

“Este tipo de eventos acaba por reforçar a importância de existirem redes de monitorização e de resposta a arrojamentos bem estabelecidas para que se possa perceber melhor os efeitos destes fenómenos na vida marinha. Isto é particularmente importante num contexto de alterações climáticas, em que se prevê que fenómenos extremos se tornem mais frequentes”, salientam.

Em terra firme

A força das tempestades é, naturalmente, também sentida em terra, como todos bem sabemos. Os mamíferos e as aves que vivem nos habitats terrestres, como florestas, bosques e pradarias, só para nomear alguns, podem ter mais dificuldades em encontrar alimento ou ver os seus lares transformados pelo poder dos ventos fortes e das chuvas intensas.

Além dessas provações, pode ser mais complicado para os animais regularem a temperatura dos seus corpos, não só pela queda das temperaturas, mas também, por exemplo, por estarem molhados durante longos períodos de tempo, arriscando a hipotermia. Esses impactos podem levar à morte de alguns indivíduos, especialmente dos mais vulneráveis e debilitados, para os quais a perda de calorias e, assim, de uma condição corporal mais robusta e saudável poderá ser fatal.

Ainda assim, e prova da resiliência e da capacidade de adaptação destas criaturas, Teresa Catry diz-nos que “de forma geral, os animais conseguem responder às adversidades alterando o seu comportamento ou a sua área de distribuição”. Em terra, os maiores impactos tendem a incidir maioritariamente sobre aves ou mamíferos de pequeno porte.

A professora de Ecologia da FCUL, e também coordenadora do grupo de Ecologia Comportamental e Conservação do CE3C, explica que os impactos das tempestades, quando a uma chuva forte e persistente se alia um vento que sopra intensamente, podem levar a que as presas de muitos desses animais, especialmente insetos e outros invertebrados, fiquem menos ativas. Isso diminui “drasticamente” as hipóteses de esses predadores conseguirem caçar com sucesso.

O facto de as tempestades poderem também causar inundações nos seus habitats muitas vezes reduz a quantidade de sementes e de frutos disponíveis, “que ficam submersos e fora do alcance destes pequenos animais”, afirma Teresa Catry. Como se não bastasse, a chuva intensa e o vento uivante podem toldar os sentidos dos animais, sobretudo a visão, a audição e o olfato, fazendo cair ainda mais a probabilidade de encontrarem alimento.

Diz a ecóloga que algumas aves pequenas, como os passeriformes, no inverno acumulam reservas de alimento que servem apenas para sustê-las durante a noite, uma vez que a maioria desses animais alimenta-se durante o dia. Quando o sol se põe, procuram abrigos onde possam evitar ao máximo perdas de calor e, assim, conservar a energia que durante o dia andaram a acumular.

Contudo, isso pode revelar-se complicado durante as tempestades, e também depois de passarem, designadamente pela perda de habitat causada pela queda de um grande número de árvores nas florestas, pela destruição de canaviais em zonas húmidas ou pela forte agitação marítima que perturba abrigos nas praias ou nas rochas onde as aves, com um tempo mais brando, se poderiam esconder.

As aves limícolas, como as que vivem em estuários onde as águas salgada e doce se cruzam e onde a vida é ditada pela subida e descida das marés, estão também expostas aos efeitos das tempestades. A agitação marítima intensa pode alagar durante muito mais tempo do que seria normal zonas importantes para a alimentação desses animais.

“Há vários estudos que mostram que aves limícolas tem menos sucesso e passam menos tempo a alimentar-se em dias de muito vento ou de chuva na costa”, explica Teresa Catry.

Regressando a terra, as inundações afetam mais os animais pequenos, tais como os que escavam túneis sob o solo e que os usam como abrigo, como é o caso de ratos e coelhos. Em caso de inundação, podem morrer afogados “por terem uma mobilidade reduzida que lhes permita escapar”, diz a ecóloga. Os que conseguirem escapar terão de enfrentar outros desafios, como o de encontrar novos locais onde possam se possam fixar, algo que poderá ser altamente difícil, especialmente pela escassez de alimento ou por não ser fácil chegar a ele, devido, sobretudo, aos solos alagados.

Mas nem tudo é necessariamente mau, dependerá, certamente, da intensidade dos fenómenos. A docente da FCUL, numa nota de positividade, explica-nos que a chuva forte pode trazer “alguns benefícios” para certas populações de animais selvagens.

“Algumas áreas alagadas tornam-se locais atrativos para espécies de aves aquáticas como patos, aves limícolas ou gaivotas. Por outro lado, a inundação de alguns locais pode trazer, a posteriori, um aumento na produtividade dos ecossistemas, com efeitos positivos para aves e mamíferos terrestres”, salienta.

As consequências das tempestades em terra poderão ser também mais severas para espécies raras ou ameaçadas de extinção, sobretudo aquelas que tenham menor sucesso reprodutor, para as quais um ninho derrubado poderá ser devastador. Numa nota igualmente positiva, fonte da Liga para a Protecção da Natureza diz-nos que a chuva intensa pode contribuir em alguns casos para o aumento da fertilidade dos solos, para recarregar os aquíferos que serpenteiam pelas entranhas rochosas da Terra e para a revitalização de diversas massas de água. Essa regeneração poderá vir a relevar-se crucial “depois de vários anos com longos períodos de seca”, afirma a organização ambientalista.

Numa altura em que todas as evidências científicas apontam para um agravamento de fenómenos climáticos extremos, como tempestades mais frequentes e intensas, mas também incêndios e secas, atentar no que se passa nos mundos não-humanos poderá ser fundamental para entender como as alterações climáticas estão a afetar a Natureza, da qual nós, humanos, dependemos mais do que pensamos.

Além disso, perceber como os animais selvagens lidam com estas catástrofes poderá ajudar-nos a refletir sobre a forma como a nossa espécie com elas lida e até a encontrar inspiração para possíveis soluções, em particular numa altura em que tanto se fala das soluções de base natural como eixo central dos esforços de adaptação climática.

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