Sem abelhas e borboletas o prato do brasileiro seria muito mais pobre. Esses insetos, que atuam como polinizadores e permitem que muitas plantas produzam frutos e sementes, sustentam a produção de alimentos e a diversidade dos ecossistemas.
O problema é que eles estão em declínio acelerado, o que coloca em risco tanto a produção de alimentos quanto a biodiversidade. Entre as principais causas do declínio estão o uso intensivo de agrotóxicos, a perda e fragmentação de habitats, decorrentes do desmatamento, das queimadas e da expansão agrícola, a simplificação das paisagens agrícolas, com monoculturas extensas e ausência de áreas floridas, e as mudanças climáticas, que alteram o período de floração e intensificam eventos extremos, como ondas de calor que podem colapsar colônias.
“Borboletas e abelhas são as espécies mais ameaçadas. No Brasil, de acordo com a avaliação do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), temos 56 espécies de abelhas, mariposas e borboletas ameaçadas de extinção e outras 18 espécies com algum nível de risco”, diz a agrônoma Fábia Pereira, pesquisadora da Embrapa Meio-Norte.
De acordo com ela, a quantidade global de insetos tem diminuído a uma taxa de 2,5% ao ano.
Estimativas apontam que, no Brasil, 75% das plantas usadas direta ou indiretamente na alimentação dependem de algum grau de polinização. Desse total, cerca de 35% das culturas têm dependência essencial: a produção de maçã, abóbora, maracujá e tangerina aumenta entre 90% e 100% com a polinização.
E 24% apresentam alta dependência: a produção de abacate, cebola (destinada à produção de sementes), erva-mate e guaraná aumenta entre 40% e 90% com a polinização.
“Café, soja e laranja, entre outras culturas, possuem uma dependência modesta, com aumento da produção entre 10% e 40%. Já feijão e uva apresentam pouca dependência, com incremento de 0% a 10% em função da polinização”, destaca Fabia Pereira.
Trabalho essencial
Ao visitar flores, abelhas e borboletas transportam grãos de pólen de uma flor para outra. Esse processo garante a fecundação das plantas, permitindo a formação de frutos e sementes.
Com uma população reduzida, a produção de alimentos seria bastante limitada. E, sem esses polinizadores, apenas plantas que não dependem deles teriam sucesso, como o milho e algumas gramíneas, que se reproduzem pelo vento.
“Esse cenário seria monótono e muito menos diverso do que o atual. Além disso, sem polinização nos ambientes naturais, as condições ambientais seriam muito piores. Viveríamos em um planeta mais quente e seco, e mesmo plantas capazes de se reproduzir sem polinizadores poderiam não sobreviver em um ambiente tão inóspito”, explica Eduardo Almeida, professor associado do Departamento de Biologia e curador da coleção entomológica Prof. J.M.F. Camargo, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP (Universidade de São Paulo).
Fábia Pereira, da Embrapa Meio-Norte, também ressalta que, se a população de polinizadores continuar diminuindo, o Brasil corre o risco de ter produções com frutos menores, deformados e com menos sementes.
“Além disso, pode haver aumento nos preços dos alimentos, especialmente frutas, hortaliças e oleaginosas, e, consequentemente, uma perda de qualidade nutricional na dieta humana”, diz a pesquisadora.
Os especialistas lembram, porém, que nem todas as espécies de abelhas atuam como polinizadoras. Cerca de 10% a 15% das espécies são parasitas, ou seja, aproveitam o trabalho de outras abelhas sem visitar flores com a mesma frequência. Há, ainda, as abelhas altamente especializadas, que visitam apenas uma espécie ou um grupo restrito de plantas.
A diversidade de comportamentos torna mais relevante compreender quais grupos desempenham papel efetivo nos ecossistemas.
Nesse sentido, Fábia Pereira destaca que as abelhas sociais se sobressaem. Elas fazem várias visitas diariamente, gostam de diversas espécies de flores e possuem o corpo coberto por pelos ramificados, capazes de reter maior quantidade de grãos de pólen.
“Colocar uma colmeia de abelha africanizada em um pomar de maçã, por exemplo, representa inserir aproximadamente 45 mil polinizadores nesse local”, diz.
O que pode ser feito
Pesquisadores ressaltam que atuar em parceria com abelhas e outros insetos é indispensável para manter a diversidade de alimentos no mundo.
Em 2022, o ICMBio criou o Plano de Ação Nacional para Conservação dos Insetos Polinizadores, um extenso planejamento para reduzir o risco de extinção desses insetos, com ações integradas da sociedade civil e de instituições governamentais. Contudo, muitas vezes os atores envolvidos não dispõem de orçamento para executar a proposta.
Entre as ações essenciais para a preservação desses agentes, Kayna Agostini, professora da CCA/UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), sugere: diminuir o uso de inseticidas tóxicos;
manejar diferentes espécies de plantas próximas ou dentro do cultivo, de modo a fornecer recursos florais para os polinizadores em diferentes períodos do ano;
incentivar a utilização de espécies de abelhas nativas; restaurar a vegetação nativa.
“Governos também podem reforçar a legislação sobre agrotóxicos, apoiar pesquisas, criar políticas específicas de conservação e oferecer incentivos econômicos para produtores que adotem práticas favoráveis aos polinizadores”, diz a professora, também pesquisadora do projeto INCT Polinização, financiado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).
Fábia Pereira, da Embrapa Meio-Norte, destaca que, ao preservar as abelhas, o agricultor contribui para a proteção de várias espécies de insetos e de outros animais.
“O agricultor pode implantar em sua propriedade jardins e faixas com espécies nativas que fornecem alimento durante todo o ano, criar corredores ecológicos entre áreas de preservação permanente e incentivar a criação de abelhas-sem-ferrão”, diz.
Fonte: Uol