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RELATÓRIO

Desequilíbrio na 'refrigeração' da Terra dobrou em 45 anos, mostra OMM

Capacidade do planeta em refletir radiação solar vem diminuindo com a poluição da atmosfera, e saldo negativo cresce desde os anos 1980, mostra relatório global

23 de março de 2026
Marco Britto
5 min. de leitura
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Foto: Corbis Documentary/Getty Images

A emissão contínua de gases estufa está causando um desequilíbrio no saldo de radiação solar que a Terra recebe e manda de volta para o espaço, o que torna os dias mais quentes, afirma relatório da OMM (Organização Meteorológica Mundial) divulgado nesta segunda-feira (23/03). O documento confirma ainda que o período de 2015 a 2025 conteve os 11 anos mais quentes já registrados pela humanidade.

No atual sistema de balanço energético, a atmosfera poluída do planeta prende a energia emanada pelo Sol, impedindo um mecanismo de equilíbrio natural. Normalmente, o planeta deveria refletir o excesso de energia e manter as temperaturas equilibradas, em um saldo zero de radiação. Porém, a atmosfera em crescente deterioração vem fazendo com que a Terra tenha dobrado a radiação absorvida, pulando de menos de 0,5 w/m² (watts por metro quadrado) em 1980 para quase 1w/m² em 2025.

O calor gerado por esta energia acumulada indevidamente se distribui em diferentes níveis pelo planeta, sendo que o maior “airbag” para este excesso são os oceanos, que absorvem 91% do total, aponta a OMM. Este fenômeno vem contribuindo fortemente para aquecer as águas mundiais, sendo que este desequilíbrio deve permanecer por muitos anos, alertam cientistas.

O aquecimento das regiões próximas à superfície da Terra (as temperaturas que os humanos sentem), representa apenas 1% do excesso de energia, enquanto cerca de 5% está armazenado nas massas continentais, segundo a OMM.

“Os avanços científicos aprimoraram nossa compreensão do desequilíbrio energético da Terra e da realidade que nosso planeta e nosso clima enfrentam atualmente”, afirma a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo. “As atividades humanas estão perturbando cada vez mais o equilíbrio natural e conviveremos com essas consequências por centenas e milhares de anos.”

Temperatura e emissões

Por considerar os principais bancos de dados climáticos disponíveis, a OMM classificou 2025 como o “segundo ou terceiro” ano mais quente já registrado. A organização aponta que a temperatura média global está cerca de 1,43 °C acima da média de 1850-1900, período anterior à revolução industrial.

Uma consequência deste aquecimento contínuo são eventos extremos, incluindo calor intenso, chuvas torrenciais e ciclones tropicais, que no ano passado “causaram perturbações e devastação, evidenciando a vulnerabilidade de nossas economias e sociedades interconectadas”, destaca o comunicado.

Segundo o relatório, a extensão anual do gelo marinho no Ártico atingiu ou se aproximou de um mínimo histórico, a extensão do gelo marinho na Antártida foi a terceira menor já registrada, e o derretimento das geleiras continuou sem controle.

A OMM destaca ainda que dados de estações de monitoramento individuais mostram que os níveis de três dos principais gases de efeito estufa – dióxido de carbono, metano e óxido nitroso – continuaram a aumentar em 2025.

“A humanidade acaba de vivenciar os onze anos mais quentes já registrados. Quando a história se repete onze vezes, não é mais uma coincidência. É um chamado à ação”, afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

Mais dados do State of Climate 2025

  • A dengue se destaca como doença transmitida por mosquitos que cresce mais rapidamente no mundo.
  • Mais de um terço da força de trabalho global (1,2 bilhão de pessoas) enfrenta riscos relacionados ao calor em algum momento do ano, especialmente na agricultura e construção civil.
  • Em 2025, o nível médio global do mar foi comparável aos níveis recordes observados em 2024, cerca de 11 centímetros mais alto do que no início do registro por satélite, em 1993.
  • Segundo o IPCC, a queda no pH da superfície dos oceanos não têm precedentes há pelo menos 26 mil anos. A acidificação prejudica ecossistemas e a produção de alimentos na aquicultura de moluscos e na pesca.
  • No ano hidrológico de 2024/2025, a perda de massa glacial das geleiras de referência esteve entre as cinco piores já registradas.
  • A extensão média anual do gelo marinho no Ártico em 2025 foi a mais baixa ou a segunda mais baixa já registrada por satélites (desde 1979), e a área média do gelo marinho na Antártida em 2025 foi a terceira mais baixa, depois de 2023 e 2024.

Fonte: Um só Planeta

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