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INVESTIGAÇÃO

Desaparecimento de cães comunitários após ação em Centro de Distribuição do Mercado Livre revolta protetores em Araucária (PR)

Relatos apontam que a captura ocorreu durante a madrugada, com uso de equipamento improvisado, e que os cachorros estavam muito assustados.

18 de fevereiro de 2026
Redação ANDA
8 min. de leitura
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Foto: Arquivo Pessoal

Quatro cães comunitários que viviam há anos no entorno do Centro de Distribuição do Mercado Livre, em Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba (PR), desapareceram após uma ação realizada na madrugada de 28 de janeiro. O caso foi denunciado por funcionários e moradores, e é investigado pela Polícia Civil.

Conhecidos na região como Rajada, Cara Preta, Xuxa (Caramela) e Lobão (Pretinho), os cães eram acompanhados pela comunidade e, segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SMMA), estavam castrados e microchipados pelo município. Eles circulavam entre a rua Ubirajara Sávio Torres e áreas próximas ao pátio do Centro de Distribuição.

Funcionários relataram que a retirada ocorreu entre 2h30 e 3h da madrugada, antes do início do expediente. “Na madrugada do dia 28 de janeiro, por volta das duas e meia da madrugada, foi feita uma operação, entre aspas, de higienização naquele lugar”, afirmou uma trabalhadora, sob condição de anonimato por medo de retaliação.

De acordo com três relatos ouvidos pela imprensa local, os animais teriam sido capturados com uso de um equipamento improvisado, descrito como um enforcador feito com cano de PVC e fio. “Eles fizeram um enforcador com cano de PVC e um fio, que parecia ser de luz, para resgatar os cachorros”, contou um funcionário. Outro trabalhador acrescentou que os cachorros urinavam de medo de entrar na Fiorino, mas mesmo assim foram forçados.

Uma funcionária disse ter presenciado o momento final da ação, quando os cães já estariam dentro de uma Fiorino branca alugada. “Eu vi a parte final da ação, quando eu acho que os cachorros já estavam dentro da Fiorino. Num primeiro momento, isso já gerou estranheza entre nós porque nunca vimos funcionar ONG de madrugada. Eles pegaram os cachorros e não sei o que foi feito com eles. Levaram sem consentimento de qualquer órgão responsável. Foi promovida uma higienização ali”, declarou.

Suposto enforcador utilizado na ação. Foto: Arquivo Pessoal

Versões contestadas

Internamente, segundo trabalhadores, a justificativa apresentada para a retirada seria a de que os cães estariam atacando pessoas. A versão é contestada. “Eles alegam que os cães ficavam mordendo as pessoas, mas eles nunca morderam”, disse um dos funcionários.

Após o desaparecimento, diferentes explicações teriam sido dadas sobre o paradeiro dos cães. Inicialmente, funcionários ouviram que uma ONG de Campo Largo, também no Paraná, teria recolhido os cachorros, o que foi negado pela entidade citada. Depois, surgiram versões de que teriam sido adotados por donos de uma chácara ou encaminhados a uma granja.

No dia 10 de fevereiro, três cães foram entregues pelo Mercado Livre à ONG DNA Animal, em Fazenda Rio Grande. A organização, porém, divulgou nota afirmando que os animais recebidos não correspondem aos cães desaparecidos em Araucária. “Esclarecemos desde já que os cães que foram acolhidos na ONG não são os apontados na reportagem, como demonstram as fotos que deixamos em anexo daqueles que estão sob nossos cuidados”, informou a entidade.

Investigação e demissões

Ao menos duas funcionárias relataram que as imagens do circuito interno do Centro de Distribuição, solicitadas pela Polícia Civil, teriam sido apagadas pelo setor de monitoramento. A corporação já intimou responsáveis e analisa registros disponíveis.

O bombeiro civil Alexandre de Andrade, que presta serviços por meio do Grupo Protege, confirmou participação na ação. “Sim, houve essa ação. Fui solicitado pelos superiores responsáveis para resgatar os cachorros, acreditando que seriam encaminhados a uma instituição”, declarou. Em mensagem posterior, negou o uso de enforcador. “Eu mesmo apanhei os animais no colo para garantir a segurança. Como todos do local sabem, sempre tive uma excelente relação e respeito com os cachorros”, afirmou.

Em nota divulgada na segunda-feira (16/02), o Mercado Livre declarou que “repudia e não compactua com maus-tratos a animais” e que está colaborando com as autoridades. Ontem (17/02), a empresa confirmou o desligamento de funcionários cuja participação “direta ou indireta” no caso foi identificada. A empresa informou ainda que organiza imagens para entrega à polícia e que tenta localizar os cães com apoio de empresas especializadas.

A Prefeitura de Araucária informou que não foi comunicada previamente sobre qualquer retirada. “É importante esclarecer que não existe autorização para retirada dos animais do local e que esses cães eram castrados e microchipados pelo município”, declarou a SMMA. O estabelecimento foi notificado ambientalmente e o caso é apurado pela Delegacia local.

Diante do desaparecimento, moradores e protetores realizaram um protesto em frente ao Centro de Distribuição, no bairro Boqueirão. O protetor independente Zezinho Dias afirmou que a comunidade espera respostas há cerca de 20 dias. “Eles desapareceram e até agora não temos informações claras. Disseram que os animais foram levados para uma ONG, mas não são os mesmos cães que viviam aqui”, relatou.

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