Um estudo publicado na Nature Geoscience, divulgado pelo Phys, aponta que o recuo da camada de gelo da Antártida Ocidental pode reduzir a capacidade do Oceano da Antártida de absorver dióxido de carbono (CO₂), criando um efeito de retroalimentação que amplia as mudanças climáticas.
A pesquisa analisou sedimentos do fundo do Pacífico Sul e identificou um mecanismo até então pouco explorado: o degelo libera grandes volumes de ferro por meio de icebergs, mas esse ferro não estimula o crescimento de algas marinhas, responsáveis por retirar carbono da atmosfera.
O motivo é químico. O ferro transportado pelo gelo é altamente intemperizado, pouco solúvel e ineficiente para a fotossíntese.
“Normalmente, mais ferro significaria mais algas e maior absorção de carbono, mas não foi isso que observamos”, explica o autor principal do estudo, Torben Struve. “O que importa não é apenas a quantidade de ferro, mas a forma química que ele assume”, explicou a coautora da pesquisa, Gisela Winckler.
Os dados mostram que, em períodos mais quentes do passado — quando grandes volumes de gelo da Antártida Ocidental se desprenderam — o crescimento das algas permaneceu baixo, mesmo com forte aporte de ferro. Evidências geológicas indicam que esse processo já ocorreu no último período interglacial, há cerca de 130 mil anos, quando as temperaturas globais eram semelhantes às atuais.
Caso o aquecimento global continue afinando e retraindo o gelo antártico, a erosão de rochas antigas sob a camada de gelo pode se intensificar, liberando ainda mais ferro quimicamente pouco eficaz. O resultado é direto: menor absorção de CO₂ pelos oceanos e maior dificuldade de conter o aquecimento global.
Em vez de atuar como aliado no combate às mudanças climáticas, o Oceano da Antártida pode perder parte de sua função como sumidouro natural de carbono, ampliando os riscos em um planeta já marcado por recordes sucessivos de temperatura.
Fonte: Um só Planeta