O avanço das mudanças climáticas tem provocado transformações cada vez mais visíveis nas regiões polares. Um dos sinais mais preocupantes desse processo é o derretimento acelerado das geleiras, fenômeno que vem sendo monitorado por cientistas em diferentes partes do mundo. Levantamento do estudo de 2026, Planeta em Degelo, baseado em dados do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), mostra que desde 1976 o planeta perdeu cerca de 9.179 gigatoneladas de gelo. Quase 98% desse volume chegou aos oceanos a partir de 1990, sendo 41% apenas entre 2015 e 2024, o que indica uma aceleração recente do fenômeno. A perda acumulada corresponde a cerca de 9 mil km cúbicos de água, quantidade semelhante ao volume que o rio Amazonas despeja no oceano Atlântico ao longo de aproximadamente 470 dias.
Esse fenômeno indica uma mudança estrutural no sistema climático do planeta Terra, segundo o professor Pedro Luiz Côrtes, do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) e da Escola de Comunicações e Artes (ECA), ambos da USP. “O gelo funciona como regulador térmico do planeta. Ele reflete parte da radiação solar de volta ao espaço e com isso ajuda a manter o equilíbrio energético. Quando esse gelo desaparece, a superfície mais escura do oceano do solo absorve mais calor e isso acaba intensificando o aquecimento global. Além disso, o degelo altera a circulação oceânica e atmosférica e contribui diretamente para a elevação do nível do mar e, com isso, amplia riscos climáticos e socioeconômicos em escala global,” explica.
O professor explica que, nas últimas décadas, o aquecimento do ar e dos oceanos se intensificou, processo associado principalmente ao aumento da temperatura média global provocado pelas emissões de gases de efeito estufa, o que acelera o derretimento de geleiras e mantos de gelo. “Um outro fator importante é o chamado efeito de retroalimentação: o gelo e a neve refletem grande parte da luz solar e, por isso, aquecem menos. Quando começam a derreter, passam a expor o solo ou o oceano, que são superfícies mais escuras e absorvem mais calor. Esse calor é transferido para a atmosfera e favorece o derretimento de outras camadas de gelo, acelerando ainda mais o processo. Além disso, mudanças nas correntes oceânicas e eventos climáticos extremos também têm contribuído para ampliar a taxa de perda de gelo”, complementa.
Impactos no nível do mar
Dados da Nasa e da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) indicam que, desde 1900, o nível médio global do mar subiu cerca de 20 cm a 23 cm. O ritmo de elevação também se acelerou nas últimas décadas e hoje ocorre, em média, entre 3 ml e 4 ml por ano.
Segundo Côrtes, grande parte desse derretimento ocorreu na Antártica e na Groenlândia, regiões que concentram enormes reservas de água doce congelada e exercem papel fundamental no equilíbrio climático do planeta. “Se esses mantos de gelo se desestabilizam, o impacto no nível do mar é muito significativo. O derretimento da Groenlândia já contribui diretamente para a elevação dos oceanos, enquanto a Antártica possui potencial para elevar o nível do mar em vários metros ao longo de séculos. Além disso, essas regiões influenciam as correntes oceânicas globais e também os padrões climáticos, o que significa que mudanças ali podem afetar o clima em diferentes partes do planeta”, destaca.
Ademais, Côrtes explica que comparar a perda acumulada de 9 mil quilômetros cúbicos de água ao volume que o rio Amazonas despeja no oceano Atlântico ao longo de aproximadamente 470 dias ajuda a traduzir um dado científico complexo para algo mais compreensível. “Esse volume seria suficiente para inundar áreas enormes ou abastecer bilhões de pessoas por muitas décadas. Para cidades costeiras, isso significa um aumento gradual e contínuo do nível do mar, elevando risco de erosão costeira, inundações e perda de infraestrutura urbana”, evidencia o professor.
“Essa comparação ajuda a mostrar que o degelo não é apenas um fenômeno distante nas regiões polares, mas algo cujas consequências concretas se distribuem para toda a população mundial”, relata Côrtes.
Cenário brasileiro
De acordo com o professor, embora o Brasil esteja distante das regiões polares, os efeitos do degelo podem chegar de forma indireta, mas ainda assim significativa. “A elevação do nível do mar pode afetar cidades costeiras brasileiras, o que já vem acontecendo e ampliando os riscos de erosão e inundações em áreas densamente povoadas. Também faz com que ocorram mudanças na circulação oceânica e atmosférica que podem influenciar regimes de chuva na América do Sul, afetando agricultura, geração hidrelétrica e disponibilidade de água”, explica.
“Em um país cuja economia depende fortemente do agronegócio e da energia elétrica, alterações climáticas globais tendem a aumentar a frequência de eventos extremos e ampliar a vulnerabilidade econômica”, conclui o especialista.
Fonte: Jornal da USP