Hoje, 8 de março, o mundo celebra o Dia Internacional da Mulher. A data é dedicada a reconhecer conquistas, denunciar injustiças e reafirmar princípios como respeito, dignidade, empatia, igualdade e justiça. Mas, ao olhar para além da sociedade humana, o que significa ser fêmea em um planeta compartilhado por tantas espécies?
A Terra não é habitada apenas por humanos. Entre florestas, savanas, oceanos e campos, existem milhões de fêmeas de outras espécies que também lideram, protegem, cuidam e lutam pela sobrevivência de seus grupos. Muitas delas exercem papéis centrais em suas sociedades, às vezes com uma força e autoridade que desafiam estereótipos enraizados.
Nas savanas africanas, por exemplo, embora o leão seja frequentemente chamado de “rei da selva”, são as leoas que sustentam a dinâmica do grupo. Elas procuram alimento, muitas vezes de forma cooperativa, defendem o território e protegem os filhotes. Enquanto isso, os machos costumam permanecer mais afastados das atividades de caça, aproximando-se principalmente quando o alimento já foi trazido pelas fêmeas.
Entre os elefantes africanos, a liderança também tem rosto feminino. As manadas são guiadas por matriarcas, fêmeas mais velhas e experientes que acumulam décadas de memória sobre rotas de migração, fontes de água e ameaças no ambiente. É a experiência dessas elefantas que mantém grupos inteiros seguros, às vezes reunindo dezenas de indivíduos sob sua orientação.
Já nas sociedades das hienas-malhadas, as fêmeas ocupam a posição dominante. Elas são maiores que os machos e comandam a complexa estrutura social do clã. Lideram disputas, resolvem conflitos e mantêm a organização do grupo. Em muitos aspectos, estão literalmente na linha de frente.
Esses casos lembram que liderança feminina não é uma exceção na natureza, é parte essencial dela. Mas existe outro lado dessa história, menos visível e muito mais doloroso.
Se na vida selvagem muitas fêmeas exercem força e autonomia, no mundo moldado pelos humanos milhões delas são reduzidas a instrumentos de exploração. Seus corpos, especialmente seus sistemas reprodutivos, tornaram-se peças centrais de uma indústria global que lucra com a reprodução, a maternidade e a produção biológica.
Na indústria de laticínios, vacas são inseminadas repetidamente para que produzam leite. Seus bezerros são retirados logo após o nascimento, ciclo após ciclo, para que o leite destinado aos filhotes seja vendido para consumo humano. A separação entre mãe e cria se repete ao longo da vida produtiva dessas fêmeas até que seus corpos, considerados esgotados, sejam enviados ao matadouro.
Nas granjas industriais, são galinhas que vivem confinadas em gaiolas apertadas para produzir ovos continuamente. Na suinocultura intensiva, são porcas que passam grande parte da vida em gaiolas de gestação e de parto, incapazes até de se virar.
Em muitas partes do mundo, outras fêmeas enfrentam diferentes formas de exploração. Na Índia, por exemplo, éguas são frequentemente usadas para puxar carroças pesadas em meio ao trânsito caótico e ao barulho das cidades. Algumas são controladas com freios pontiagudos que ferem seus lábios, enquanto seus corpos debilitados suportam jornadas exaustivas.
Todos os animais sofrem quando transformados em mercadorias. Mas, em muitos casos, são as fêmeas que carregam o peso mais brutal dessa exploração. Isso acontece porque o corpo feminino é fonte de vida e, quando essa capacidade é apropriada economicamente, transforma-se em lucro.
Hoje, ao celebrarmos as conquistas das mulheres, devemos ampliar nosso círculo de compaixão. Reconhecer a dignidade e o valor das fêmeas de outras espécies aprofunda o compromisso da luta feminista com um princípio fundamental de que nenhum ser senciente deve ser explorado ou tratado como objeto.
Animais não humanos não podem votar, protestar nas ruas ou exigir direitos em tribunais. Eles dependem inteiramente das escolhas humanas.
Se há algo que o Dia Internacional da Mulher nos ensina é que sistemas de exploração podem ser questionados e transformados. Talvez a verdadeira celebração desta data esteja em reconhecer a força das fêmeas, humanas e não humanas, e imaginar um mundo onde nenhuma delas seja definida apenas pela utilidade de seu corpo.