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ESTUDO

Crise climática: Florestas centenárias na Austrália estão morrendo por causa do calor extremo

Estudo com 83 anos de dados mostra que a taxa de mortalidade cresce em todos os tipos de florestas da Austrália; fenômeno negativo já é observado também na Amazônia, Europa e América do Norte

8 de janeiro de 2026
Nilson Cortinhas
3 min. de leitura
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Cidade de Swifts Creek, Victoria, encoberta por fumaça de incêndios florestais em 2006. Foto: Wikimedia Commons

As florestas da Austrália estão passando por uma transformação silenciosa, no entanto, negativa. Árvores, que antes sobreviviam por décadas ou séculos, estão morrendo cada vez mais rápido. A causa não é incêndios ou desmatamento. O problema é o estresse frequente causado pelo aquecimento do clima.

A constatação aparece em uma nova pesquisa divulgada pelo The Conversation e detalhada em reportagem do ABC News, com base em um estudo publicado na revista Nature Plants.

A pesquisa reuniu dados de mais de 2.700 áreas de monitoramento florestal, acompanhando 203.721 árvores de 958 espécies ao longo de 83 anos. O levantamento cobre desde savanas tropicais no norte da Austrália até florestas temperadas frias no sul do país e revela um padrão: a taxa natural de mortalidade das árvores vem aumentando desde meados do século 20, independentemente do tipo de floresta ou da localização.

Segundo os autores, trata-se da análise mais abrangente já realizada. Mesmo após considerar fatores como idade das árvores, densidade das florestas e competição por recursos, o aumento das mortes permaneceu, indicando uma mudança estrutural no funcionamento dos ecossistemas florestais.

De acordo com a ecóloga fisiológica, Belinda Medlyn, da Western Sydney University, autora principal do estudo e entrevista pelo ABC, o fator mais fortemente associado ao aumento da mortalidade é o avanço de um clima mais quente e seco. As taxas de morte cresceram mais rapidamente em regiões quentes, áreas com menor disponibilidade de água e florestas mais densas – no local, a competição por recursos é intensa.

Os dados mostram que, entre 1963 e 2020, a mortalidade anual mais que dobrou nas florestas tropicais australianas, passando de 0,5% para 1,3%. Nas savanas tropicais, subiu de cerca de 1,5% em 1996 para 2,7% em 2017. Já nas florestas temperadas quentes, a taxa mais que triplicou desde a década de 1940. Mesmo nas florestas temperadas frias, consideradas historicamente mais estáveis, a mortalidade aumentou.

Os pesquisadores também investigaram se o aumento poderia estar ligado a um crescimento mais rápido das árvores, impulsionado por maiores concentrações de dióxido de carbono na atmosfera. A hipótese foi descartada. O impacto preocupa porque as florestas absorvem cerca de um terço das emissões globais anuais de dióxido de carbono e funcionam como importantes amortecedores das mudanças climáticas.

Estudos semelhantes já identificaram tendências parecidas na Amazônia, na Europa e na América do Norte. Há indicativos, portanto, que o processo observado na Austrália pode se repetir em escala global.

Os autores também chamam atenção para a perda de programas de monitoramento. Muitas áreas analisadas deixaram de ser acompanhadas nas últimas décadas, e tecnologias como satélites ainda não conseguem registrar, com detalhamento e precisão, a mortalidade das árvores.

Fonte: Um só Planeta

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