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MATERIAL TÓXICO

'Coquetel químico': ataques a depósitos de petróleo no Irã podem deixar rastro de poluição no ar, na água e no solo

Nuvem de fuligem e partículas tóxicas atingiu a capital iraniana após os ataques; cientistas alertam para efeitos imediatos na saúde e possíveis danos ambientais de longo prazo

11 de março de 2026
6 min. de leitura
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Fumaça sobe da área após ter sido alvo de ataques, enquanto uma série de explosões são ouvidas em Teerã, Irã, em 1º de março de 2026. Foto: Getty Images

Ataques a depósitos e infraestruturas de petróleo no Irã já começam a produzir efeitos ambientais visíveis e podem deixar consequências duradouras para a saúde humana e os ecossistemas. Especialistas alertam que incêndios em depósitos de combustíveis fósseis liberam uma mistura tóxica de partículas e compostos químicos, enquanto organizações que monitoram conflitos admitem dificuldade para dimensionar os danos ambientais gerados pela escalada militar na região.

Dois dias após bombardeios realizados por aviões israelenses, depósitos de combustível em Teerã, entre eles o terminal de Shahran, ao nordeste da capital, e outro complexo ao sul da cidade, continuavam em chamas na segunda-feira (9). Logo após os ataques, a agência ambiental iraniana e a Sociedade do Crescente Vermelho pediram que moradores permanecessem em casa. A preocupação era a dispersão de substâncias tóxicas liberadas após o impacto em cinco instalações ligadas a combustíveis fósseis na região, com risco de chuva ácida e irritações na pele e nos pulmões.

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que danos a instalações petrolíferas podem gerar efeitos amplos. “A destruição de estruturas de petróleo no Irã ameaça contaminar alimentos, água e ar, riscos que podem ter impactos graves na saúde, especialmente em crianças, idosos e pessoas com condições médicas pré-existentes”, disse.

Autoridades iranianas já relatam sinais iniciais de contaminação. O vice-ministro da Saúde do país, Ali Jafarian, afirmou à rede Al Jazeera que solos e fontes de água próximas à capital começaram a apresentar indícios de poluição após as explosões do fim de semana.

Moradores de Teerã relataram dificuldades para respirar, dores de cabeça e irritação nos olhos e na garganta no dia seguinte aos bombardeios. Horas após as explosões, uma chuva escura caiu sobre a cidade. Segundo o cientista atmosférico Akshay Deoras, da Universidade de Reading, o fenômeno ocorreu pela combinação de fuligem e partículas finas liberadas pelos incêndios com a chuva de uma tempestade que já avançava sobre a região.

“Os ataques liberaram fuligem, fumaça, partículas de petróleo, compostos de enxofre e provavelmente metais pesados e outros materiais inorgânicos dos edifícios”, explicou. Esses compostos podem reagir com a água da chuva e formar substâncias ácidas. A exposição à fumaça e às partículas, acrescenta o pesquisador, pode provocar dores de cabeça, irritação nos olhos e dificuldades respiratórias, efeitos mais intensos em crianças, idosos e pessoas com doenças pulmonares.

Para o químico Andrea Sella, do University College London, os efeitos imediatos podem ser apenas parte do problema. Em entrevista ao The Guardian, ele disse que a explosão de tanques e tubulações espalha compostos químicos potencialmente tóxicos pelo ambiente.

“O petróleo bruto contém vários elementos, inclusive metais, que podem se dispersar indiscriminadamente”, disse. “Isso cria um verdadeiro coquetel químico, incluindo compostos aromáticos conhecidos por interagir com o DNA e associados ao câncer.” Uma vez rompidas as estruturas de contenção, acrescenta, o material pode infiltrar-se no solo e alcançar fontes de água potável.

Efeito cascata na região

Os ataques também ampliam o risco de um efeito dominó em outras infraestruturas energéticas do Golfo Pérsico. Após as explosões no Irã, a empresa estatal de energia do Bahrein declarou força maior em suas operações depois que a única refinaria do país foi atingida por um ataque iraniano. A Arábia Saudita afirmou ter interceptado quatro drones direcionados ao campo petrolífero de Shaybah.

Nas últimas semanas, instalações energéticas estratégicas já haviam sido alvo de drones ou ataques em diferentes pontos da região, incluindo a maior planta exportadora de gás natural do Catar, a refinaria saudita de Ras Tanura, centros de armazenamento de combustível em Omã e nos Emirados Árabes Unidos e petroleiros no Golfo Pérsico. Cada um desses episódios traz risco de vazamentos ou incêndios com impactos ambientais significativos.

“Sabemos agora de centenas de incidentes ambientalmente problemáticos no Irã e na região”, disse Doug Weir, diretor do Conflict and Environment Observatory, que busca acompanhar os danos ambientais do conflito, algo que, segundo ele, tem se tornado cada vez mais difícil. Restrições à internet, continuidade dos combates e demora na obtenção de imagens de satélite tornam a estimativa de incidentes subestimada.

“Reconstruir a pegada ambiental da guerra e seus efeitos sobre pessoas e ecossistemas será uma tarefa enorme, e que fica mais complexa a cada dia que o conflito continua.”

A pegada climática das guerras

Além da contaminação local, conflitos armados também têm peso relevante nas emissões de gases de efeito estufa, vilões da crie climática. As emissões militares incluem tanto o combustível consumido por aviões, navios e tanques quanto a destruição causada pelos combates, como incêndios, explosões e vazamentos de combustíveis.

Há ainda as emissões indiretas da indústria militar e da reconstrução posterior das cidades e infraestruturas destruídas, muitas vezes baseada em cimento, um dos materiais com maior intensidade de carbono.

Estimativas da organização Scientists for Global Responsibility indicam que as atividades militares respondem por cerca de 5,5% das emissões globais anuais. Se fossem atribuídas a um país, representariam o quarto maior emissor do planeta. Dentro desse universo, o setor militar dos Estados Unidos é o maior consumidor individual de energia do governo americano e responde por cerca de 1,5% das emissões do país, mais do que muitos países inteiros.

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