Sustentabilidade, lembra a Fundação Paul Watson, não se resume a evitar um colapso imediato. Envolve responsabilidade intergeracional, contenção diante do risco e a capacidade de reconhecer quando uma prática perdeu qualquer legitimidade no presente.
Uma investigação da Fundação Paul Watson expôs a narrativa oficial que sustenta a caça a baleias-piloto nas Ilhas Faroé, conhecida como grindadráp, e mostra as contradições centrais nos argumentos usados para justificar a continuidade da prática. As informações analisadas têm como base documentos e relatórios da North Atlantic Marine Mammal Commission (NAMMCO), Comissão Norte-Atlântica de Mamíferos Marinhos em português.
De acordo com a fundação, a NAMMCO não é um órgão de proteção, mas uma entidade de gestão favorável à caça de baleias e golfinhos. Entretanto, mesmo a partir dessa perspectiva seus próprios cientistas reconhecem que as populações atuais de baleias-piloto estão muito abaixo do que seriam em um cenário sem séculos de exploração. No relatório do Grupo de Trabalho sobre Baleias-Piloto de 2025, a modelagem populacional indica que os números atuais podem ser até 90% menores do que uma população intacta, anterior à caça sistemática iniciada nas Ilhas Faroé em 1709.
Apesar disso, a caça segue sendo classificada pela NAMMCO como “sustentável”. Essa classificação se apoia em um parâmetro profundamente distorcido, já que a comparação não é feita com o tamanho natural da população, mas com um patamar já drasticamente reduzido. Em outras palavras, avalia-se o impacto atual com base no que restou após séculos de mortes, e não no que foi perdido ao longo do tempo.
Esse tipo de classificação é conhecida na ciência ambiental como normalização da perda. Quando a exploração se prolonga por gerações, cada geração passa a considerar como normal um estado já degradado da natureza. A perda histórica deixa de ser referência, e o cálculo passa a aceitar a escassez como ponto de partida.
O próprio relatório da NAMMCO mostra incertezas relevantes que contradizem ainda mais a tese da sustentabilidade. Fatores como mudanças climáticas, alterações na disponibilidade de presas, contaminação química e o acúmulo de pressões humanas são apenas parcialmente considerados nos modelos. Ainda assim, a prática segue como se esses riscos fossem controláveis.
Outro ponto revelado pela investigação é a origem dos dados biológicos usados para embasar as conclusões. Grande parte das informações sobre idade, reprodução e saúde das baleias-piloto vem dos próprios animais mortos durante a caça. Os corpos são analisados para calcular quantos outros corpos ainda podem ser retirados do oceano, em um ciclo que transforma a violência em ferramenta estatística.