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DESMATAMENTO

Com mais de 600 anos e 88,5 metros, árvore mais alta da Amazônia e outras gigantes verdes correm risco

Campanha com apoio de pesquisadores e ambientalistas alerta para garimpo, desmatamento e falhas na gestão de unidades de conservação que ameaçam santuário das maiores árvores da América Latina

29 de agosto de 2025
6 min. de leitura
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Angelim-vermelho de 88,5 metros de altura, maior árvore já encontrada na Amazônia. Foto: Projeto Árvores Gigantes da Amazônia

As maiores árvores já registradas na Amazônia e em toda a América Latina – todas da espécie angelim-vermelho (Dinizia excelsa), com alturas que variam entre 70 e 88 metros – permanecem sob risco diante do avanço do garimpo ilegal, do desmatamento e da grilagem de terras. O alerta é da campanha “Proteja as Árvores Gigantes”, liderada pelo instituto O Mundo Que Queremos em parceria com outras 20 organizações ambientais e pesquisadores.

A iniciativa publicou uma nota técnica encaminhada a órgãos ambientais estaduais e federais, cobrando medidas urgentes para garantir a proteção dessas árvores centenárias, com idades estimadas entre 400 e 600 anos. “Não basta o parque existir no papel. É preciso assegurar a presença efetiva do Estado e garantir que a unidade de conservação cumpra sua função socioambiental, que é proteger de forma integral as árvores gigantes”, afirma Angela Kuczach, articuladora da campanha e diretora-executiva da Rede Pró-UC.

Parque criado, mas ainda sem proteção efetiva

A pressão da sociedade civil, desde a descoberta do santuário natural de gigantes, resultou em avanços importantes, como o cancelamento de cerca de 500 Cadastros Ambientais Rurais (CARs) irregulares no Pará e a criação, em setembro de 2024, do Parque Estadual das Árvores Gigantes da Amazônia, em Almeirim (PA). O parque, com 560 mil hectares, abriga a maior árvore do Brasil – um angelim-vermelho de 88,5 metros, altura equivalente a um prédio de 30 andares – e outros 12 exemplares monumentais.

Apesar do status de unidade de proteção integral, a gestão ainda apresenta fragilidades. O Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-Bio) mantém apenas um gestor responsável pelo parque e outras três unidades de conservação que, juntas, somam 7 milhões de hectares. A ausência de um plano de manejo e de um conselho gestor impede a participação da sociedade civil e das comunidades locais na administração da área, contrariando o modelo de gestão participativa previsto no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), observa a nota.

Ameaças no Pará e no Amapá

No Pará, relatos de comunidades locais apontam sinais de garimpo ilegal próximos aos limites do parque, como a coloração anômala de igarapés e clareiras na floresta. Já no Amapá, a situação é ainda mais crítica: das sete árvores gigantes identificadas, seis estão dentro de áreas de uso sustentável, onde a exploração madeireira é permitida. Uma delas, a segunda maior árvore já registrada na Amazônia está localizada a apenas 1 km de um garimpo ilegal em Laranjal do Jari.

A ausência de fiscalização agrava o cenário. A última operação relevante no Amapá ocorreu em novembro de 2024, quando a Polícia Civil apreendeu uma aeronave e interditou um aeródromo usado como base de apoio a garimpos clandestinos.

Patrimônio natural em risco

O Ministério Público do Amapá recomendou o tombamento das sete árvores gigantes do estado como patrimônio natural, além da criação de Áreas de Preservação Permanente (APPs) num raio de 1 km ao redor de cada uma. Embora reconheça a medida como positiva, o movimento “Proteja as Árvores Gigantes” defende que somente a criação de unidades de conservação de proteção integral – como ocorreu no Pará – poderá assegurar a preservação desses exemplares.

Valor científico e climático

Essas árvores guardam informações preciosas sobre o passado e o futuro da Amazônia. Seus anéis de crescimento registram dados sobre secas, cheias, estoques de carbono e mudanças atmosféricas ao longo de séculos. Uma única árvore de grande porte pode concentrar até 80% da biomassa de carbono de um hectare.

“Encontrar uma árvore com 60 metros já é raro. Estamos investigando os fatores que causaram esse fenômeno de gigantismo e esperamos encontrar muitas outras árvores gigantes, inclusive maiores que 88 metros”, explica o pesquisador Robson Lima, da Universidade Estadual do Amapá (UEAP), integrante da equipe que descobriu os exemplares em 2022.

O estudo contou com o uso de tecnologias de sensoriamento remoto e mais de 900 sobrevoos sobre a floresta. Ainda assim, apenas 1% da Amazônia foi mapeada – o que significa que muitas árvores podem já ter sido derrubadas antes de serem identificadas.

Desafio global

Para especialistas e organizações, proteger as árvores gigantes é mais do que conservar um patrimônio natural: é uma resposta concreta à crise climática. A nota técnica da campanha alerta que o governo precisa garantir recursos financeiros, pessoal para fiscalização e regularização fundiária da área.

“A elaboração do plano de manejo deve ser encarada como prioridade, em respeito à legislação ambiental e como demonstração de compromisso do Brasil diante da comunidade internacional”, diz o documento.

Enquanto isso, as maiores árvores da América Latina continuam à mercê de pressões ilegais que avançam sobre a floresta. A poucos meses da COP30, em Belém, a campanha insiste que o Brasil precisa mostrar que tem condições de proteger o que tem de mais monumental em sua biodiversidade.

“A COP30 será a grande vitrine do Brasil para o mundo, e não podemos correr o risco de exibir um santuário que simboliza a grandeza da biodiversidade amazônica enquanto a floresta continua ameaçada”, avalia Angela Kuczac.

Fonte: Um só Planeta

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