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CONSEQUÊNCIAS

Colapso de corrente oceânica pode congelar a Europa e desestabilizar o mundo, alerta Islândia

País classifica possível ruptura da AMOC como risco à segurança nacional; estudos indicam chance maior de colapso ainda neste século

18 de fevereiro de 2026
Ernesto Neves
5 min. de leitura
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Vista aérea de Reykjavik, capital da Islândia. Foto: Getty Images

A Islândia colocou no centro de sua estratégia de segurança nacional um cenário que até pouco tempo parecia ficção científica: o colapso de uma das principais correntes oceânicas do planeta.

O sistema em questão é a Circulação Meridional do Atlântico, conhecida pela sigla AMOC. Ele funciona como uma espécie de esteira transportadora de calor, levando águas quentes dos trópicos em direção ao Atlântico Norte.

Esse mecanismo ajuda a manter o clima relativamente ameno no norte da Europa, apesar da alta latitude.

Caso a corrente enfraqueça drasticamente ou entre em colapso nas próximas décadas, o planeta continuaria a aquecer em termos médios, mas partes da Europa poderiam esfriar de forma abrupta.

Modelos climáticos indicam que a Islândia poderia enfrentar invernos com temperaturas próximas de -45°C, além da possibilidade de formação de gelo marinho ao redor da ilha, algo que não ocorre desde o início da ocupação humana no território.

Diante desse risco, o governo islandês classificou oficialmente o colapso da AMOC como ameaça à segurança nacional.

O que é a AMOC e por que ela importa

A AMOC opera há cerca de 10 mil anos. No Atlântico Norte, águas quentes vindas do sul perdem calor para a atmosfera, tornam-se mais densas e afundam, retornando em profundidade para latitudes mais baixas.

Esse ciclo regula o clima, influencia regimes de chuva e sustenta ecossistemas marinhos. Sem esse “aquecimento central” oceânico, Reykjavik, situada no paralelo 64ºN, teria clima semelhante ao de regiões quase inabitadas do Canadá.

Além da Europa, a AMOC influencia as monções na África Ocidental e no Sul da Ásia, o regime de chuvas na Amazônia e a produtividade agrícola global.

Um colapso poderia afetar cadeias alimentares, intensificar eventos extremos e gerar instabilidade geopolítica, segundo análises do Instituto de Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático e de centros britânicos como a Strategic Climate Risks Initiative.

O que dizem os estudos recentes

Em 2021, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) classificou como “muito improvável” um colapso da AMOC antes de 2100. Desde então, novos estudos ampliaram o debate.

Pesquisa publicada em 2024 analisou nove modelos climáticos sob cenários de altas emissões. Em todos, a AMOC enfraqueceu significativamente e acabou interrompida no longo prazo.

Mesmo em cenários compatíveis com as metas do Acordo de Paris, os autores estimaram até 25% de chance de colapso.

O oceanógrafo Stefan Rahmstorf, um dos principais especialistas no tema, afirma que o risco foi “subestimado por anos”. Ele alerta para a possibilidade de o sistema atingir um ponto de não retorno nas próximas décadas.

Outros pesquisadores defendem cautela. Estudos recentes sugerem que mecanismos de estabilização podem tornar o sistema mais resiliente do que se teme.

Ainda assim, há consenso de que a AMOC está enfraquecendo desde meados do século 20, segundo dados observacionais compilados por instituições como a NOAA e o Met Office britânico.

O papel do aquecimento global

O principal gatilho para a instabilidade da AMOC é o aquecimento acelerado do planeta. O derretimento da Groenlândia despeja grandes volumes de água doce no Atlântico Norte, alterando a salinidade e a densidade da água, fatores essenciais para o funcionamento da corrente.

Além disso, o aumento da temperatura atmosférica reduz a troca de calor entre oceano e ar, prejudicando o mecanismo que impulsiona o afundamento das águas frias e salinas.

A Islândia, com cerca de 400 mil habitantes, depende fortemente da pesca e de condições climáticas relativamente estáveis. Um resfriamento abrupto poderia comprometer a agricultura, a infraestrutura e a própria habitabilidade do país.

Preparação e dilemas

Até agora, o governo islandês não anunciou medidas concretas de adaptação, mas afirmou que incorporará o risco da AMOC em seu planejamento nacional até 2028.

No debate público surgem propostas controversas, como investimentos em geoengenharia, técnicas para refletir parte da radiação solar e reduzir artificialmente a temperatura global. A ideia divide a comunidade científica e enfrenta resistência política.

Especialistas alertam que o maior risco pode ser ignorar sinais precoces. “Quando você tiver certeza absoluta de que a AMOC colapsou, provavelmente já será tarde demais”, afirma Halldór Björnsson, pesquisador do Escritório Meteorológico da Islândia.

Impacto global

Um eventual colapso não afetaria apenas o norte da Europa. Modelos indicam mudanças profundas nos padrões de chuva na África e na Ásia, redução da produção agrícola global e aumento da frequência de eventos climáticos extremos.

Em um mundo já pressionado por ondas de calor recordes, secas prolongadas e enchentes devastadoras, a possibilidade de cruzar um “ponto de inflexão” climático amplia a preocupação de governos e cientistas.

Para a Islândia, acostumada a viver sob a ameaça de vulcões e terremotos, a nova preocupação vem do oceano.

Fonte: Revista Veja

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