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DESTRUIÇÃO

Chuvas históricas colocam milhares de animais em risco e mobilizam resgates na Zona da Mata (MG)

Bombeiros, voluntários e moradores relatam salvamentos dramáticos de animais domésticos e silvestres em meio a deslizamentos e escombros.

26 de fevereiro de 2026
Redação ANDA
5 min. de leitura
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Tutora reencontra cão resgatado em abrigo em Juiz de Fora (MG). Foto: GRAD

Quando a chuva desce pesada e contínua, transforma ruas em correntezas, quintais em lamaçais e casas em ruínas, e, no meio do caos, há olhos que não entendem o que está acontecendo. São cães acuados no alto de telhados, gatos ilhados em muros, aves encharcadas tentando escapar da força da enxurrada. Em Minas Gerais, centenas de animais lutam para sobreviver às chuvas históricas que devastam a Zona da Mata.

Em Ubá e Juiz de Fora, os temporais deixaram para trás um rastro de destruição que atinge abrigos, clínicas veterinárias e lares onde animais ficaram presos, soterrados ou separados de seus tutores.

Acesso para abrigo e centro veterinário é prejudicado em Ubá

Na zona rural de Ubá, a ponte que dá acesso a um centro veterinário e a um abrigo com cerca de 600 animais foi arrancada pela força da água na noite da última segunda-feira (23/02). Um córrego que passa em frente à unidade transbordou e abriu uma cratera de aproximadamente cinco metros de profundidade por dez de largura, bloqueando completamente a passagem de veículos. Não há outra rota para chegar ao local.

Segundo o veterinário Ricardo Marra, que atende na unidade, o centro ainda dispõe de insumos, ração e medicamentos. “Ainda temos insumos, ração, medicações necessárias, mas a nossa preocupação é resolver isso o mais breve possível porque se chover mais, a gente vai ter problemas”, afirmou.

A prefeitura informou que enviou uma máquina ao local na terça-feira (24/02), mas o equipamento não conseguiu acessar a área devido aos danos. Ontem (25/02), uma nova equipe iniciou os trabalhos de recuperação da ponte.

O centro é o único da região a oferecer atendimento veterinário gratuito, operado pela Sociedade Ubaense de Proteção aos Animais e à Saúde Humana (Suplash). A ONG, criada em 1999, faz mais de 30 atendimentos gratuitos diários, entre consultas clínicas e castrações, e tem parceria com a prefeitura para manter o abrigo.

Apesar de a estrutura do prédio não ter sido danificada, o atendimento segue com dificuldade, já que tutores precisam estacionar antes da cratera e seguir o restante do trajeto a pé, contornando o trecho destruído.

Devastação em Juiz de Fora

Em Juiz de Fora, também na Zona da Mata, a situação é igualmente crítica. Trinta e cinco animais, entre cães, gatos e aves, foram resgatados de casas atingidas por enchentes e deslizamentos.

Voluntários do Grupo de Resposta a Animais em Desastres (Grad) atuam desde a tarde de terça-feira (24/02) nas áreas afetadas. A equipe, formada por 12 integrantes, incluindo médicos veterinários, se divide em trios para percorrer bairros atingidos, visitar abrigos e atender chamados de moradores.

O grupo recebe pedidos tanto de pessoas acolhidas em abrigos quanto de moradores do entorno das áreas de risco. “São pessoas que saíram de casa e não tiveram como levar seus animais, ou que não estavam em casa na hora do deslizamento”, explica Carla Sássi, fundadora e presidente do Grad.

Entre os resgatados estão quatro gatos recém-nascidos com a mãe, galinhas e um cão cujo tutor é uma criança que está desaparecida. Além de devolver os animais às famílias, o grupo providencia encaminhamentos para clínicas e lares temporários, realiza remoção de parasitas internos e externos e aplica vacinas.

“Animais são tão vítimas quanto seres humanos. É inaceitável que eles não sejam resgatados”, afirma a veterinária Carla Sássi.

O Grad atua em parceria com Bombeiros e Defesa Civil e utiliza viaturas, ambulância e drone nas operações. Fundado em 2011, o grupo tem experiência em tragédias como os rompimentos de barragens em Brumadinho e Mariana, além das enchentes em Petrópolis e no Vale do Taquari. Nesta última, realizou 5 mil atendimentos, 3.760 castrações e distribuiu 70 toneladas de ração.

Um vídeo feito na tarde de ontem mostra bombeiros resgatando um cachorro em meio aos escombros no bairro Vila Ideal, em Juiz de Fora. Em outra região da cidade, no bairro Nossa Senhora de Lourdes, o estudante Davi Ghedim Vitalino, de 22 anos, viu a casa onde nasceu ser destruída em poucos minutos e precisou salvar os cachorros e a avó.

Na noite da tragédia, por volta das 22h30, Davi estava com a avó, de 63 anos, quando a chuva se intensificou e a parede começou a vibrar. Poucos minutos depois, a terra desceu. “Eu não sei de onde tirei força, mas corri no quarto, peguei um cachorro no braço, depois o outro, e comecei a descer a escada. Quando eu estava descendo, a terra já veio atrás de mim. Eu senti nas costas. Mais dois segundos e a parede teria caído em cima de mim”, relatou.

Ele saiu apenas com o celular no bolso, os dois cães nos braços e a avó em estado de pânico. Uma cachorra de vizinhos chegou a ser soterrada, mas foi salva. “O mais importante saiu comigo: minha avó e meus cachorros. O resto a gente tenta reconstruir.”

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