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DESENTENDIMENTOS

Chimpanzés entram em ‘guerra civil’ rara; crise ambiental pode ser estopim

Pesquisa detalha ataques coordenados dentro de um mesmo grupo em Uganda

13 de abril de 2026
Nilson Cortinhas
2 min. de leitura
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Foto: Aaron Sandel/Reprodução Science

Um grupo de chimpanzés selvagens foi registrado em um conflito, com ataques coordenados e mortes, no que cientistas classificam como uma possível “guerra civil” inédita na espécie, segundo estudo publicado na revista Science e divulgado pelo The Guardian.

A pesquisa analisou mais de três décadas de observações de uma comunidade de chimpanzés no Parque Nacional de Kibale, em Uganda, considerada a maior já estudada na natureza. Até 2015, o grupo apresentava coesão social, mas sinais de tensão começaram a surgir naquele ano, quando indivíduos passaram a demonstrar comportamento incomum diante de membros da própria comunidade.

“O que parecia um encontro entre desconhecidos era, na verdade, o início de uma ruptura”, afirmou o primatologista Aaron Sandel, um dos autores do estudo.

Nos anos seguintes, a divisão se consolidou. Até 2018, a comunidade havia se fragmentado em dois grupos distintos, conhecidos como chimpanzés do oeste e chimpanzés centrais. A partir daí, os conflitos se acentuaram. Em um período de sete anos, foram registrados 24 ataques coordenados, que resultaram na morte de pelo menos sete machos adultos e 17 filhotes.

Embora chimpanzés já sejam conhecidos por comportamentos agressivos contra grupos externos, a violência entre membros de uma mesma comunidade é rara.

Hipóteses

Os pesquisadores alertam que fatores externos, especialmente ligados à ação humana, podem aumentar a frequência dessas rupturas. Entre eles estão o desmatamento, a fragmentação de habitat, a crise climática e a disseminação de doenças.

E também há uma questão das mudanças na hierarquia social. A submissão do macho alfa a outro indivíduo, somada à morte de membros mais velhos e influentes nos anos anteriores, teria enfraquecido os laços internos do grupo. “A perda desses indivíduos provavelmente fragilizou as conexões sociais, tornando o grupo mais vulnerável à polarização”, explicou Sandel. Um surto de doença registrado em 2017 também pode ter acelerado a divisão.

Já o pesquisador Sylvain Lemoine, da Universidade de Cambridge, esclareceu que a coesão entre os indivíduos depende de conexões que podem se fragilizar rapidamente em determinadas condições. “Mesmo sem marcadores culturais, os laços sociais são o que mantém o grupo unido. Quando esses vínculos se rompem, o equilíbrio pode desaparecer”, afirmou.

Ameaça

O caso gera preocupações para a conservação dos chimpanzés, espécie já ameaçada de extinção. Após os ataques, os chimpanzés do grupo central passaram a apresentar as menores taxas de sobrevivência já registradas para uma comunidade da espécie.

Fonte: Um só Planeta

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