Foto: Prefeitura de Cartagena
Em 2026, Cartagena, na Colômbia deu um passo fundamental para acabar com os maus-tratos aos animais. Com o Decreto Municipal 2296, que proíbe charretes puxadas por cavalos no Centro Histórico e na Cidade Murada, a paisagem tradicional da cidade está passando por uma transformação após décadas de abandono. As populares charretes que circulam pelas ruas serão substituídas por uma frota inicial de 62 veículos elétricos movidos a energia solar e com capacidade para seis pessoas, incluindo o motorista e um guia turístico. A iniciativa inclui um programa piloto inicial de três meses. Estima-se que haja pelo menos cem cavalos usados em charretes turísticas na cidade, e ativistas dos direitos animais exigem respostas sobre o futuro desses animais.
“Este é um passo muito importante para Cartagena. Com as charretes elétricas, estamos caminhando rumo a uma cidade mais moderna, sustentável e humana. Por trás deste projeto está um enorme compromisso com o bem-estar animal e, acima de tudo, com a dignidade daqueles que trabalharam por tantos anos nesta profissão tão representativa da nossa cidade”, disse o prefeito de Cartagena, Dumek Turbay, em 30 de dezembro, no lançamento das primeiras 24 charretes movidas a energia solar. Essa iniciativa havia dividido a população de Cartagena entre tradicionalistas e ambientalistas e, nos últimos anos, contrastava os cartões-postais idílicos do Caribe com imagens de cavalos desmaiando.
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Segundo informações oficiais, o projeto visa integrar gradualmente os cocheiros tradicionais. Estima-se que cerca de 120 famílias dependam dessa atividade para seu sustento, e espera-se que elas possam participar da transição para veículos elétricos. O programa piloto, de acordo com a prefeitura, capacitou inicialmente 60 cocheiros. Este continua sendo um ponto crucial do programa, visto que muitos cocheiros não possuíam seus veículos e trabalhavam na informalidade. A prefeitura indicou que está em diálogo com associações que representam esses grupos para integrá-los formalmente ao mercado de trabalho. Em entrevistas à imprensa local, alguns representantes solicitaram que, além do bem-estar animal, seus direitos trabalhistas sejam protegidos durante esse período de transição.
A iniciativa em defesa dos direitos animais recebeu um impulso do mundo da cultura. Alejandro Riaño, humorista conhecido por seu personagem satírico Juanpis Gonzáles, relembra como começou esse processo, que ele ajudou a lançar. Foi durante as férias de Ano Novo de 2022. Naquele momento, ele viu um cavalo desabar diante de seus olhos, resultado dos longos dias de exploração a que os animais são submetidos. Ele gravou um vídeo denunciando a situação, e seus seguidores apoiaram sua denúncia, mas também responderam com possíveis soluções, exemplos de outras cidades. Isso levou à ideia de criar um carro alegórico elétrico para manter a tradição do desfile pelo centro histórico sem maltratar os animais. Assim, Riaño, por iniciativa própria, iniciou o processo de criação de um protótipo, que levou dois anos para ser concluído. “Este é o resultado do esforço de milhares de pessoas. Reunimos 3.150 doadores para financiar a construção do protótipo, que entregamos à Prefeitura de Cartagena. Esta é uma atividade da sociedade civil”, explicou ao EL PAÍS.
O caminho de se opor a esse tipo de veículo, que não era novidade no país, mas encontrou receptividade em sua plataforma, não foi fácil, enfatiza ele. Desde o lançamento de sua campanha, recebeu inúmeras ameaças anônimas nas redes sociais, o que, paradoxalmente, o impediu de retornar ao Centro Histórico sem segurança particular. Para o humorista, este é o exemplo perfeito de como é difícil mudar a mentalidade de algumas pessoas e confrontar máfias que lucram há anos com o sofrimento animal e a exploração de cocheiros que não são donos dos veículos.
Embora a administração de Dumek tenha garantido que supervisionará o processo de cuidado e adoção dos cavalos retirados das ruas, grupos de defesa dos direitos animais expressaram dúvidas. Natalia Parra, membro da plataforma colombiana de direitos animais, afirma que os ativistas estão preocupados porque não receberam informações detalhadas sobre o processo de reabilitação dos cavalos. Além disso, citam declarações de um funcionário da prefeitura indicando que os cavalos serão proibidos de circular apenas no Centro Histórico, e não em toda a cidade. “Apoiamos a iniciativa; não queremos ser um obstáculo, mas enquanto não houver ações concretas para retirar os animais do trabalho, não podemos comemorar”, explica. Cartagena celebra seu novo status como um cartão-postal caribenho de avanços tecnológicos e em direitos animais, mas perguntas permanecem sem resposta, tanto em relação ao emprego quanto ao bem-estar dos cavalos que, por décadas, transportaram turistas.
Traduzido de El País.