Um relincho começa como um som agudo e penetrante — quase como uma chaleira a ferver — e logo se junta um tom mais grave e gutural. Durante anos, os cientistas pensaram que era apenas uma variação vocal. Mas um novo estudo publicado na revista Current Biology revela algo surpreendente: os cavalos conseguem produzir estas duas componentes de formas completamente diferentes — e ao mesmo tempo.
O som grave surge da vibração das pregas vocais, como acontece na fala humana. Já o som agudo… é literalmente um assobio.
Esta é a primeira evidência experimental de que um mamífero pode produzir simultaneamente um assobio e uma vibração das pregas vocais. “Adorei! É uma descoberta fantástica que esteve sempre à vista”, afirma Coen Elemans, bioacústico da Universidade do Sul da Dinamarca, que não participou no estudo.
Dois sons num só relincho
Regra geral, os mamíferos produzem sons ao expirar ar pelas pregas vocais. Animais maiores têm pregas vocais mais pesadas e, por isso, produzem sons mais graves. Faz sentido — cavalos são grandes, pesam cerca de 500 quilos.
Mas quando relincham — seja por excitação ou aflição — conseguem atingir frequências tão altas que intrigaram a investigadora Elodie Briefer, da Universidade de Copenhaga. “É demasiado agudo para o tamanho do corpo deles”, explica.
Em 2015, ao analisar relinchos num espectrógrafo, Briefer descobriu que eram bifónicos — ou seja, tinham dois tons distintos. “Pensei que fossem dois cavalos. Depois vi que eram duas frequências.”
Poucos mamíferos produzem sons bifónicos. Golfinhos e orcas conseguem, tal como os lémures-de-cauda-anelada. Alguns humanos também dominam essa técnica, como no canto difónico.
O segredo está na laringe
Para desvendar o mecanismo, os investigadores realizaram exames com endoscópios a dez garanhões suíços. As imagens mostraram que o relincho começa com a nota aguda (associada a uma contração na laringe) e depois junta-se a vibração das pregas vocais, produzindo o tom grave.
Estudos com cavalos que sofrem de paralisia parcial das pregas vocais reforçaram a conclusão: o som grave tornava-se irregular, mas o agudo permanecia normal.
Por que razão os cavalos fazem isto?
Segundo os investigadores, produzir dois tons pode ampliar o “vocabulário” dos cavalos e permitir melhor comunicação a longas distâncias. Sons mais agudos conseguem ultrapassar ruídos naturais graves, como vento ou água corrente. “Faz sentido que tenha havido pressão evolutiva para alcançar frequências mais altas”, afirma Elemans.
A descoberta levanta novas questões: será que outros mamíferos usam o mesmo truque? Antas, rinocerontes e alces produzem sons surpreendentemente agudos, mas ainda não foram estudados com este nível de detalhe.
Fonte: Pets in Town