Castores podem ser importantes aliados contra as mudanças climáticas, diz estudo
Pesquisa mostra que áreas alagadas criadas por castores funcionam como sumidouros de carbono e podem auxiliar no combate às mudanças climáticas
23 de março de 2026
Éric Moreira
4 min. de leitura
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Foto: Getty Images
Um estudo recente aponta que os castores podem desempenhar um papel relevante no combate às mudanças climáticas ao contribuir para a captura de carbono em ambientes naturais. A pesquisa, publicada na revista Communications Earth and Environment, analisou áreas úmidas formadas por represas desses animais e concluiu que elas podem atuar como sumidouros líquidos de carbono, absorvendo mais do que liberam ao longo do tempo.
O trabalho foi conduzido em um riacho de cerca de 0,8 quilômetro no norte da Suíça, onde castores foram reintroduzidos em 2010. Antes disso, o local funcionava como uma planície aluvial com grande presença de árvores. Com a chegada dos animais, parte da vegetação foi removida para a construção de represas, o que alterou a paisagem e favoreceu o crescimento de plantas menores, além da formação de áreas alagadas.
Para medir o impacto dessas transformações, os pesquisadores calcularam o chamado “orçamento de carbono” do local. Foram analisados o carbono presente na água, aquele liberado para a atmosfera e o armazenado em sedimentos, biomassa e madeira morta. A equipe coletou amostras do solo, da vegetação ao redor e de algas do riacho, além de avaliar a vazão da água, a quantidade de sedimentos e outros parâmetros ambientais.
Os resultados indicaram que a área úmida formada pelos castores sequestrava entre 108 e 146 toneladas de carbono por ano, funcionando como um sumidouro líquido. Esse volume equivale à emissão gerada pelo consumo de centenas de barris de petróleo. Com base nesses dados, os pesquisadores estimam que, em regiões da Suíça adequadas à recolonização por castores, esses ambientes poderiam compensar entre 1,2% e 1,8% das emissões anuais de carbono do país.
Aliados absolutos?
Apesar dos resultados promissores, os autores do estudo ressaltam que as conclusões ainda são preliminares, já que a análise foi realizada em apenas um local. Fatores como clima, geologia, vegetação e disponibilidade de espaço podem influenciar significativamente a capacidade de armazenamento de carbono dessas áreas. Ainda assim, os cientistas destacam o potencial dos castores como aliados de baixo custo em estratégias de mitigação climática.
“Os castores não vão resolver as mudanças climáticas, mas nossa pesquisa mostra que esses engenheiros naturais podem ajudar silenciosamente as paisagens fluviais a armazenar mais carbono nas próximas décadas”, afirmou Lukas Hallberg, pesquisador da Universidade de Birmingham e autor principal do estudo, em e-mail ao Live Science. “Trabalhar com processos naturais desde o início não é apenas ecologicamente correto, mas também economicamente sensato.”
A avaliação também foi bem recebida por especialistas externos. Emily Fairfax, professora assistente da Universidade de Michigan, destacou que os resultados ajudam a contestar a ideia de que zonas úmidas não são eficazes no armazenamento de carbono. “A forma como descreveram os lagos de castores como sumidouros de carbono duráveis é realmente importante”, disse ela.
“Esta é uma ferramenta muito poderosa para apoiar a restauração de zonas úmidas que precisa acontecer, e também para diminuir o ceticismo em relação aos castores… As pessoas são muito rápidas em rotular os castores como um problema e procuram uma razão para controlá-los rigorosamente. E acho que este estudo faz um ótimo trabalho ao mostrar que não precisamos fazer nada além de deixar os castores serem castores”, complementa Fairfax.
Historicamente, os castores foram caçados intensamente na Europa e na América do Norte, o que levou à quase extinção da espécie em diversas regiões. Com a recuperação gradual das populações, cientistas voltam a investigar seu papel ecológico, incluindo a capacidade de influenciar o armazenamento de carbono em larga escala, repercute o Live Science.
Embora ainda seja difícil estimar com precisão o impacto global dessa dinâmica, estudos anteriores já sugerem que áreas com presença ativa de castores podem representar uma parcela significativa do carbono armazenado em determinadas paisagens. Para os pesquisadores, a restauração dessas populações pode trazer benefícios ambientais adicionais, como o aumento da resiliência de ecossistemas a eventos extremos.
“A piada no mundo da ciência dos castores é que, se você tem um problema, existe um castor para isso”, afirmou Fairfax.