Áudios divulgados pela imprensa mostram uma nova frente na investigação sobre a morte do cão comunitário Orelha, vítima de extrema violência na Praia Brava, em Florianópolis (SC), no início de janeiro. As gravações trazem o relato de um porteiro do prédio onde moram adolescentes suspeitos de envolvimento no caso, indicando que o animal teria sido agredido na mesma noite em que o grupo se envolveu em confusão no local.
No áudio, o funcionário afirma que os jovens teriam agredido o cão e mexido na estrutura improvisada que servia de abrigo ao animal. Orelha era cuidado pela comunidade e vivia na região, prática comum em áreas urbanas, mas que expõe animais a riscos constantes diante da ausência de políticas públicas efetivas de proteção.
“Na mesma noite que eles arranjaram confusão comigo, eles parecem dar umas pauladas no cachorro e depois foram lá e mexeram na barraca ainda. Seis folgados, são seis folgados que têm aí”, conta o funcionário no áudio.
Segundo a apuração, o porteiro chegou a registrar imagens dos adolescentes e comentar o comportamento deles em um grupo de vigilantes da região, mas o vídeo foi retirado da internet após a repercussão do caso.
Testemunha sob pressão e indiciamento de familiares
Apesar disso, a Polícia Civil de Santa Catarina indiciou três familiares dos adolescentes por coação de testemunha. De acordo com a investigação, eles teriam pressionado o porteiro, testemunha-chave do caso, no contexto do inquérito que apura a morte de Orelha. Os indiciamentos ocorreram após interrogatórios realizados pela polícia.
No dia 26 de janeiro, mandados de busca e apreensão foram cumpridos nas residências dos envolvidos, com o objetivo de localizar uma possível arma de fogo que teria sido utilizada para ameaçar o funcionário. O objeto não foi encontrado.
Investigação aponta tortura e tentativa de afogamento
Os relatórios policiais, no entanto, indicam suspeita de que Orelha tenha sido submetido a uma sessão de tortura, com ferimentos tão graves que levaram à morte do animal. A investigação também aponta uma tentativa de afogamento contra um segundo cão comunitário, chamado Caramelo, que conseguiu escapar.
Além dos crimes de maus-tratos a animais, tipificados pela legislação brasileira como crime ambiental, a Delegacia Especializada apura possíveis atos de depredação de patrimônio e crimes contra a honra cometidos contra trabalhadores da região. O caso também foi encaminhado à Delegacia Especializada no Atendimento ao Adolescente em Conflito com a Lei, em razão da idade dos suspeitos.
Mais de 20 pessoas já foram ouvidas ao longo da investigação, e celulares e outros dispositivos eletrônicos dos adolescentes foram apreendidos para análise.