A Floresta de Araucárias e os Campos de Altitude formam um dos mosaicos ecológicos mais emblemáticos da Mata Atlântica. Eles abrigam biodiversidade única e fornecem serviços ecossistêmicos importantes. Além disso, sustentam modos de vida que favorecem a conservação: o manejo de fogo, a criação extensiva de gado e a coleta de pinhão, práticas que ajudaram a moldar a paisagem atual e contribuem na manutenção dos campos naturais. Mesmo assim, seguem entre os ambientes mais ameaçados do Brasil.
Campos de Altitude são ecossistemas que ocorrem “dentro” da Mata de Araucárias. Ao contrário da “mata”, cuja característica é a presença de árvores de grande porte (especialmente a Araucária) e a formação de uma cobertura caracterizada pela junção de inúmeras copas (chamada dossel), os campos são dominados por gramíneas e arbustos. Contudo, mais de 300 espécies vegetais são exclusivas deste ecossistema.
Os campos ocorrem sobretudo no sul do Brasil, em áreas de invernos acentuados e de maior elevação em relação ao nível do mar (entre 800 e 1800 m). A Floresta com Araucárias, dominada pela árvore símbolo do Paraná, já perdeu mais de 95% de sua área original. Os Campos de Altitude também foram amplamente convertidos para agricultura, pastagens plantadas e silvicultura.
Em um estudo de 2024, os autores revisitaram dados de satélite e constataram: temos apenas 1,2 milhão de km² (ou apenas 4%) de remanescentes dessa outrora majestosa floresta preservada de araucárias. Deste total, apenas 13,5 % estão dentro de alguma Unidade de Conservação. É muito pouco.
Avaliando Unidades de Conservação
Quão eficazes são as Unidades de Conservação na preservação desses ecossistemas? Para responder a essa questão, desenvolvemos um estudo que mostrou que a ameaça não apenas segue ativa, mas avança até mesmo dentro de Unidades de Conservação criadas para proteger esses ecossistemas.
Nossos resultados revelaram que áreas protegidas florestadas da Mata de Araucárias estão relativamente estáveis nos últimos 35 anos (1985-2021). No entanto, os Campos de Altitude continuam sendo convertidos e degradados.
Analisamos uma área que compreende três Unidades de Conservação (UCs) federais extremamente representativas na região sudoeste do Paraná e oeste de Santa Catarina. Elas são o Parque Nacional das Araucárias, a Estação Ecológica da Mata Preta e o Refúgio de Vida Silvestre dos Campos de Palmas, criadas entre 2005 e 2006, nos municípios de Palmas (PR), General Carneiro (PR), Abelardo Luz (SC), Passos Maia (SC) e Ponte Serrada (SC). Essas três UCs englobam mais de 35 mil hectares do mosaico florestas-campos.
Um dos principais objetivos das UCs é o de barrar a expansão agrícola e o desmatamento, comuns ao processo econômico da região sulina. E a criação dessas Unidades trouxe avanços – mas não para todos os ecossistemas ávidos por proteção.
Nosso estudo analisou 36 anos de mapas anuais de uso da terra produzidos pelo MapBiomas, uma rede global e multi-institucional que monitora as mudanças na cobertura e uso do solo. Avaliamos o interior dessas três UCs e três zonas de entorno, de 500 metros a 10 quilômetros além de seus limites. A pergunta era simples: essas áreas protegidas conseguiram frear a perda de vegetação nativa, além de atenuar o impacto em seus entornos?
UCs eficientes, mas nem sempre
A resposta que encontramos foi: depende do ecossistema analisado. Florestas com araucária foram preservadas, o que é muito bom. Já os Campos de Altitude sentiram um impacto maior.
Nas duas Unidades de Conservação de Proteção Integral voltadas à proteção florestal, a situação é positiva. Dentro do Parque Nacional das Araucárias, a perda acumulada de floresta ao longo de 36 anos foi de apenas 1,82% em relação à área total da Unidade de Conservação. Na Estação Ecológica da Mata Preta, a redução foi de 1,40%.
Em todas as zonas de amortecimento ao redor, porém, a perda foi muito maior. Isso significa que as unidades funcionaram como um escudo contra a expansão agrícola e a silvicultura. As florestas estabilizaram-se após a criação das áreas protegidas, mesmo com fortes pressões no entorno.
Já quando olhamos para o Refúgio de Vida Silvestre dos Campos de Palmas, criado para proteger áreas de Campo de Altitude, identificamos uma perda de 31% de sua área entre 1985 e 2021. No período após a criação da unidade (2005–2021), a perda do ecossistema passou de 20%.
O dado mais preocupante é este: a perda de campos dentro da área protegida foi maior do que fora dela. A conversão para silvicultura, soja e mosaicos agrícolas foi intensa, especialmente após 2005. Isso indica que a criação da unidade não interrompeu o avanço das atividades produtivas. Pelo contrário, parte da pressão parece ter migrado para dentro da área protegida.
Isso se deu, possivelmente, devido a conflitos fundiários ainda não resolvidos, reduzida eficiência fiscalizatória e conversão ilegal dos campos para outros usos do solo. Nosso estudo, no entanto, não buscou avaliar exaustivamente os motivos pelos quais os Campos de Altitude continuaram ameaçados mesmo legalmente protegidos. Ademais, nossa proposta metodológica pode ser replicada à totalidade das Unidades de Conservação existentes ao longo do mosaico Araucária-Campos de Altitude, sejam elas federais, estaduais e municipais. Isto permitirá um diagnóstico ainda mais completo sobre a preservação dos ecossistemas dentro de áreas protegidas no sul do Brasil.
Por que nem todas as UCs são exitosas na preservação de seus ecossistemas?
É óbvio que as Unidades de Conservação são imprescindíveis. Elas são uma das melhores e principais estratégias de proteção à biodiversidade, o que ficou evidente com a preservação das florestas com araucária em duas das UCs avaliadas em nosso estudo. Mas por que os campos naturais são tão difíceis de proteger e quais os riscos para este ecossistema extremamente ameaçado?
Há várias razões:
1. Campos de altitude não se parecem com florestas e, por isso, muitos imaginam, equivocadamente, que só têm valor quando transformados.
2. A legislação brasileira é mais clara e rígida para florestas do que para formações campestres.
3. Esses ambientes precisam de manejo ativo. Sem pastoreio ou fogo controlado, a vegetação se fecha e perde suas características ecológicas. A ausência dessas práticas de manejo pode acelerar o avanço de árvores e favorecer a conversão para outros usos.
4. A silvicultura com espécies exóticas, como Pinus, também pressiona os campos. Essas árvores exóticas podem invadir áreas abertas e transformar todo o ecossistema.
5. Os campos ainda enfrentam o oportunismo político, propagado por meio de desinformação.
Desinformação que destrói ecossistemas
O atual Governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, aparentemente usou, em dezembro de 2025, dados de auditoria encomendados por empresa madeireira (acusada de causar passivos ambientais por justamente converter ilegalmente campos naturais para silvicultura) para dizer que mais de “70% do território catarinense” está dentro do domínio dos Campos de Altitude. A afirmação distorce a realidade ao pressupor que há uma conservação total do ecossistema. A própria Lei da Mata Atlântica (que é o domínio/bioma que contém tanto os Campos de Altitude quanto a Mata de Araucárias), reforça a preservação dos remanescentes. Estudos recentes indicam que menos de 5% dos Campos de Altitude seguem preservados no Estado de Santa Catarina.
Além disso, propostas políticas baseadas em desinformação e contrárias à ciência buscam enfraquecer ainda mais a proteção dos Campos de Altitude. É o caso, por exemplo, da discussão pela Câmara dos Deputados, em 2024, do Projeto de Lei 364/19, que tenta classificar campos naturais usados para pecuária como “áreas rurais consolidadas”.
Na prática, isso abriria caminho para a conversão de milhões de hectares de campos nativos em todo o Brasil. Estudos mostram que esse tipo de medida resultaria em perda massiva de biodiversidade, afetaria a recarga hídrica e empurraria comunidades tradicionais para a margem do processo decisório.
Caminhos a percorrer
O caminho para proteger o que resta desses ecossistemas passa por múltiplos setores. As florestas com araucária mostram que áreas protegidas podem funcionar quando há fiscalização, legislação clara e reconhecimento social. Com os campos, isso ainda deve ser fortalecido.
Para que essa proteção seja efetiva, precisamos de políticas públicas específicas para campos nativos; fiscalização contínua; manutenção do reconhecimento legal de que campos são ecossistemas naturais, não pastagens degradadas; manejo ativo com queimadas controladas e pecuária extensiva; participação de comunidades locais no planejamento; expansão de Unidades de Conservação de Uso Sustentável e de Proteção Integral.
Sem estratégias multissetoriais, perderemos rapidamente um dos mosaicos mais ameaçados e ainda pouco compreendidos da Mata Atlântica.
Fonte: The Conversation