Símbolo da vida marítima da cidade, o boto-cinza (Sotalia guianensis) está estampado há 130 anos no brasão do Rio de Janeiro. A Baía de Sepetiba, no litoral sul, a 70 quilômetros do centro da cidade, já foi um santuário de águas calmas e fartura de peixes, o lar ideal para uma das maiores populações desses animais no mundo. Hoje, no entanto, a realidade é de uma guerra silenciosa por espaço.
Nossas pesquisas, desenvolvidas no Laboratório de Ecologia e Conservação Marinha (ECoMAR-UFRJ), mostram que os botos de Sepetiba não estão apenas convivendo com o desenvolvimento humano, estão encurralados.
Monitoramos a região há mais de 20 anos e documentamos uma transformação drástica. A baía, que deveria funcionar como berçário e área de alimentação, tornou-se um campo minado de navios, redes de pesca e poluição.
As pesquisas mostram que a intensa atividade humana está empurrando essa população para um ponto de não retorno, repetindo os mesmos erros que assolam há décadas os botos-cinza da vizinha Baía de Guanabara.
Uma zona de perigo
O boto-cinza é um animal costeiro e não costuma ir para o mar aberto. Ele depende das baías e estuários para viver, reproduzir e se alimentar. O problema é que as atividades econômicas da região usam exatamente as mesmas áreas rasas e protegidas.
Em um estudo, que publicamos recentemente na revista Aquatic Conservation: Marine and Freshwater Ecosystems, identificamos que 90% das áreas adequadas para os botos em Sepetiba e na Ilha Grande se sobrepõem a atividades humanas intensas. Para comer ou cuidar de seus filhotes, eles precisam navegar entre navios cargueiros, áreas de fundeio (“estacionamento” de navios), embarcações turísticas e redes de pesca espalhadas na baía.
Ou seja, não há refúgio seguro. Nossa pesquisa mostra que os melhores lugares para eles viverem coincidem quase perfeitamente com as zonas de maior tráfego portuário e atividade industrial.
E como você agiria se uma autoestrada fosse construída no meio da sua sala de jantar? Os botos de Sepetiba estão mudando de comportamento, de formas que mostram que estão sofrendo.
Como dependem do som para se comunicar e encontrar alimento (ecolocalização), o barulho dos motores de navios e obras portuárias pode atrapalhar suas rotinas. Estudos recentes mostram que a taxa de assobio (a “fala” dos botos) caiu cerca de 85% nas últimas décadas e que muitos indivíduos da baía estão preocupantemente magros.
Poucos peixes e água contaminada
A sobrevivência do boto depende diretamente da saúde da base da cadeia alimentar. No entanto, o suprimento dos botos está ficando escasso. Há uma queda drástica no número de espécies e na quantidade de peixes nas últimas décadas.
Essa escassez é causada pela degradação de manguezais para a expansão portuária e especulação imobiliária, que destrói os berçários naturais da região. Sem as raízes do mangue para se protegerem e crescerem, as populações de peixes colapsam.
Somado a isso, a pesca artesanal, embora fundamental para a economia local, pode acabar entrando em conflito com os botos. A competição por recursos cada vez mais escassos e o risco de emalhamento acidental em redes (bycatch) tornam a baía um lugar perigoso.
Como consequência, o boto-cinza leva hoje cerca de seis vezes mais tempo procurando comida do que no início dos anos 2000, gastando uma energia preciosa apenas para não morrer de fome.
Não é apenas a falta de comida que preocupa, mas a qualidade do que resta. A industrialização transformou o fundo da baía em um depósito de poluentes. O sedimento de Sepetiba apresenta um alto risco ecológico devido a presença de metais pesados.
Esses metais sofrem um processo chamado biomagnificação: eles se acumulam nos peixes e chegam aos botos em doses mais concentradas, pois estão no topo da cadeia alimentar.
Esse ambiente contaminado é um fator muito agravante quando há o surgimento ocasional de algum patógeno oportunista, pois enfraquece o sistema imunológico dos animais. Essa fragilidade permitiu que, entre 2017 e 2018, um surto de morbilivírus matasse mais de 200 botos em poucos meses.
O fantasma da Guanabara e o futuro climático
Não precisamos olhar longe para saber como essa história termina se nada for feito. A Baía de Guanabara, a apenas 60 km de distância, viu sua população de botos-cinza colapsar nas últimas décadas, restando hoje apenas um pequeno grupo lutando contra a extinção local.
Para piorar, o futuro reserva novos desafios. Projeções indicam que as mudanças climáticas vão reduzir ainda mais o habitat disponível para a espécie. O aquecimento das águas e outras características ambientais podem tornar vastas áreas do litoral brasileiro inadequadas para os botos-cinza nas próximas décadas, empurrando-os para áreas ainda mais restritas e urbanizadas.
A criação de Áreas Marinhas Protegidas (AMPs) é fundamental, mas desenhar linhas em um mapa não é suficiente. Nossos dados mostram que as áreas protegidas na vizinha Baía da Ilha Grande não cobrem as zonas mais críticas para a vida dos botos e permitem atividades extrativas que competem diretamente com eles.
Para evitar o desaparecimento do boto-cinza na Baía de Sepetiba, não basta olhar para um problema de cada vez. O maior desafio é o que chamamos de impactos cumulativos: a pressão conjunta de portos, poluição, pesca e turismo. Esse cerco de todos os lados é muito mais letal do que cada atividade isolada, pois impede que os animais tenham tempo de se recuperar.
Um plano de ação imediato
O primeiro passo para aliviar essa pressão é impedir a construção de novos portos e indústrias na Baía de Sepetiba. Nos últimos anos, a baía foi alvo de pelo menos dois grandes projetos com impacto ambiental significativo. Houve a tentativa de implementar quatro termelétricas sem licenciamento ambiental em 2022 e, agora, a construção de um novo porto.
Além de impedir a criação de novos empreendimentos, é importante reduzir a presença e a velocidade de navios, as atividades de dragagem em períodos sensíveis e controlar rigorosamente os efluentes industriais e urbanos que poluem a cadeia alimentar. Também é importante coibir a pesca ilegal e predatória, principalmente, de barcos de grande porte que vêm de fora da baía.
O boto-cinza se enquadra no que chamamos de espécie sentinela. Por ser muito sensível, é um sinal de alerta para degradação ambiental. A sua magreza, o seu silêncio e o seu desaparecimento gradual são avisos de que a Baía de Sepetiba está doente.
Salvar os botos não é apenas sobre preservar uma espécie carismática; é sobre garantir a saúde de um ecossistema que sustenta a pesca, o turismo e a qualidade de vida de milhões de pessoas no Rio de Janeiro. Desenvolvimento a qualquer custo não é mais uma opção.
Ainda há tempo, mas a janela de oportunidade está se fechando tão rápido quanto o avanço industrial sobre as águas da baía.
Fonte: The Conversation