Diante dos avanços do aquecimento global, não somos os únicos a sofrer com as consequências. O derretimento das calotas polares, a elevação do nível do mar e a ocorrência cada vez maior de eventos climáticos extremos são alguns dos efeitos causados pelas alterações no clima e os principais afetados são aqueles que usam a própria natureza como proteção: os animais.
As mudanças climáticas são capazes de afetar todos os animais de forma direta ou indireta, sendo aquáticos ou terrestres. “Praticamente qualquer animal pode estar suscetível às mudanças climáticas. Porém, de maneira geral, animais ectotérmicos – aqueles que regulam a temperatura corporal conforme o ambiente – podem ser mais vulneráveis”, explica a bióloga Cybele Lisboa, do zoológico de São Paulo.
Assim como proposto pelo naturalista Charles Darwin em 1858, mesmo nos dias atuais, a seleção natural continua definindo quem tem mais chances de sobreviver no ambiente – espécies com menor flexibilidade às alterações climáticas correm mais risco de extinção.
“É particularmente preocupante a situação em relação a espécies de baixa tolerância a variações ambientais. Por outro lado, mesmo espécies mais tolerantes, em condições extremas, podem ser forçadas a realizar migrações de áreas mais afetadas para locais com condições mais adequadas, o que pode interferir em maior grau de competição com outras espécies”, alerta o professor de ciências biológicas Julio Cesar de Moura Leite, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Ao ter os ciclos reprodutivos e disponibilidade de alimentos atrapalhados, os animais são diretamente afetados pelas alterações no clima. As variações de tempo, como tempestades, secas e enchentes, também afetam os lugares onde vivem os animais, especialmente os de distribuição geográfica restrita. “Isso é particularmente preocupante em situações isoladas como ilhas ou picos de montanhas”, exemplifica Leite.
Impactos na prática
Não é incomum ver notícias dos impactos climáticos na vivência dos animais. Um grande exemplo são os insetos. Um estudo recente apontou que o ozônio e o óxido nítrico são agentes capazes de alterar o odor das formigas e, consequentemente, fazer companheiras de colônia se atacarem como uma forma de defesa às “intrusas”.
Outras espécies bastante perturbadas são tartarugas e crocodilianos, em que a variação de temperatura afeta diretamente a determinação do sexo dos filhotes. O aquecimento do planeta cria um desequilíbrio nos machos e fêmeas nascidos e, consequentemente, atrapalha a reprodução.
Animais polares e marinhos também sofrem com o clima, visto que o calor provoca o derretimento acelerado de gelo nas calotas, aquecimento e acidificação nos oceanos.
“O urso-polar depende do gelo para caçar e está perdendo seu habitat com o derretimento das calotas. Já animais marinhos, como corais, peixes e tartarugas, também estão sendo afetados. O branqueamento dos corais é um exemplo grave disso”, afirma a professora de biologia Emanuele Abreu, do Colégio Católica Brasília.
Os anfíbios são outro grupo bastante afetado, pois dependem da ambiente para regular a temperatura corporal – ou seja, quanto mais quente o planeta, mais calor eles sentirão.
Tempo para respostas de ambientalistas está passando
O estrago na natureza já foi considerável e, caso não aconteçam mudanças drásticas, o cenário futuro não é muito animador. Por isso, a principal estratégia dos ambientalistas não é reverter o quadro, mas sim mitigar ao máximo os efeitos já instalados para evitar extinções em massa de diversas espécies.
“Ações de proteção podem ajudar a mitigar o problema, pelo menos para as espécies que se mostrarem mais resilientes. Mas não deverão ser suficientes se as políticas públicas em âmbito global, delineadas em vários acordos internacionais, não se tornarem realidade”, alerta Leite.
Entre as principais medidas para mitigação dos efeitos climáticos na natureza, estão:
- Proteção e recuperação de habitats naturais, como florestas, manguezais e recifes de corais;
- Criação de corredores ecológicos e unidades de proteção ambiental;
- Cuidados com a qualidade da água;
- Combate a espécies invasoras;
- Redução da emissão de gases poluentes;
- Fortalecimento de leis ambientais e projetos de proteção.
“Essas ações não resolvem tudo de forma imediata, mas ajudam a diminuir os danos e a preservar muitas espécies”, conclui Emanuele.
Fonte: Metrópoles