Barnabé tinha apenas algumas semanas quando foi parar nas mãos de Mônica e Hugo. Acostumada, desde pequena, a cuidar de pássaros que caíam no quintal de sua casa, em uma área rural, Mônica o acolheu. O plano era simples e rotineiro: dar comida e abrigo até que ele ganhasse força para voar. “A ideia era que, depois de dois ou três meses, ele seguiria a própria vida.”
No entanto, com o tempo, o instinto deu lugar ao afeto. Os pombos são aves territoriais, e Mônica acredita que Barnabé encontrou em sua casa, em Castelo Branco, um conforto definitivo, por ser o lugar onde foi criado e alimentado. Apesar de haver um pombal vizinho com aves soltas — ao qual os tutores imaginaram que ele se juntaria —, o pombo fez uma escolha improvável: ao fim de cada dia de voos livres, seu destino é voltar para casa.
Quando Barnabé se recuperou e a janela foi finalmente aberta para que retornasse à natureza, ele desapareceu. “Foi um chororô enorme”, lembra Mônica. Mas o luto durou pouco. “No dia seguinte, no fim da tarde, ele voltou para casa. Acho que ainda choramos mais, de alegria.”
Hoje, com quase três anos, Barnabé “é um adulto completamente adaptado” a uma vida dupla. Seus dias começam e terminam em uma antiga cama de gato, da qual ele se apropriou. Com alguns gravetos e ovos decorativos, “fez dela o seu ninho”.
As manhãs começam com um café da manhã reforçado, cheio de sementes variadas. “Ele é muito mimado.” Já as tardes são dedicadas à liberdade: ele voa, explora o jardim e convive com outras espécies. Tem até suas “namoradas rolinhas” do lado de fora.
Dentro de casa, o comportamento de Barnabé se assemelha ao de um típico animal doméstico. “O Hugo é o favorito”, conta Mônica. O pombo “faz um som parecido com o ronronar de um gato e bate as asas para pedir atenção”. Ainda assim, não deixa de impor sua presença. Convive de forma pacífica com as cadelas da família, mas, de vez em quando, assume o controle do território e “coloca elas na linha”.
“Quanto às fezes, as pessoas esquecem que estamos falando de uma ave isolada, e não de um bando”, explica Mônica, acrescentando que o volume é pequeno. Como estão frequentemente em casa, limpam e desinfetam o local imediatamente, e “a logística acaba sendo bem simples”.
A vontade genuína de Barnabé de conviver com humanos contrasta fortemente com a má reputação de sua espécie. Pombos são frequentemente chamados de transmissores de doenças, um estigma que Mônica faz questão de combater. “Eles só fazem mal à saúde se estiverem em condições de higiene deploráveis e em número excessivo”, defende, argumentando que um pombo saudável não apresenta mais riscos do que “uma galinha ou um papagaio”.
@z.barnab “Tenho os meus dias e nem sempre estou bem disposto.” Barnabé. #pombodeestimação #pigeon #natureza #pombocorreio #pombo ♬ som original – Zé Barnabé
Por enquanto, Barnabé continua dividindo seus dias entre o conforto de casa e o céu aberto. E se um dia não voltar? Mônica é firme em sua filosofia, herdada do pai: “Nunca concordei em manter animais presos. Os pássaros têm seus sonhos nas asas. Ficarei preocupada, mas, se for a decisão dele, vou aceitar com felicidade.”
Fonte: Público