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AMEAÇA À VIDA

Baleias estão em perigo por tráfego marítimo em Nova York (EUA), com aumento de colisões e emaranhamentos

Aumento de movimentação de embarcações em rotas dos mamíferos têm sido prejudicial aos animais, à medida que leis não avançam

5 de janeiro de 2026
10 min. de leitura
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Uma baleia emerge do Oceano Atlântico perto de Sheepshead Bay durante um cruzeiro de observação de baleias no inverno, organizado pela American Princess Cruises, em 15 de novembro de 2025. Foto: Johnny Milano / The New York Times

Pouco antes do meio-dia de um domingo de outubro, os passageiros se acomodaram no convés superior do American Princess, um navio de cruzeiro de 29 metros que partiu de Sheepshead Bay, no bairro do Brooklyn, em Nova York (EUA), rumo ao Oceano Atlântico em busca de baleias.

Eles não precisaram esperar muito para encontrar uma. Depois de contornar Breezy Point, no Queens, o capitão desligou o motor e os turistas correram para o lado de bombordo quando a crista cinza-vítrea da barbatana dorsal de uma baleia jubarte rompeu a superfície das ondas.

A equipe havia encontrado a fêmea de 8,8 metros e 5.760 quilos três dias antes e visto mais de uma dúzia de cicatrizes superficiais ao longo de suas costas.

Duas semanas depois, a mesma baleia encalhou em um banco de areia perto de Long Beach Island, Nova Jersey, e morreu no dia seguinte. Funcionários do Marine Mammal Stranding Center, um serviço de resgate de animais com sede em Nova Jersey, determinaram que a hélice de um navio a havia ferido em agosto. Uma necropsia revelou que ela estava gravemente abaixo do peso e apresentava sinais de doença renal, informou a instituição.

Após terem sido caçadas quase até a extinção, as populações de baleias têm se recuperado lentamente em todo o Atlântico desde a aprovação de diversas medidas de proteção, incluindo uma moratória internacional sobre a caça comercial de baleias em 1986. Pesquisadores têm observado recentemente um número maior de baleias permanecendo na costa do porto de Nova York para se alimentar de lançons, arenques-do-atlântico e outros peixes pequenos, em vez de continuarem para suas áreas de alimentação tradicionais no Golfo do Maine.

Eles estão longe de ser os únicos na rodovia aquática de Nova York. O tráfego de navios porta-contêineres, petroleiros e barcos de pesca tornou-se mais congestionado desde a pandemia do coronavírus, o que levou a colisões e emaranhamentos que contribuem para o encalhe de baleias em Nova York e Nova Jersey. Os esforços para reduzir a velocidade de embarcações menores estagnaram e as leis federais que protegem os mamíferos marinhos estão sendo enfraquecidas.

— Existem pequenas rodovias invisíveis que atravessam o território das baleias jubarte — disse Joy Reidenberg, que estuda a estrutura e a função dos corpos dos animais na Escola de Medicina Icahn do Mount Sinai. — É como um cervo atravessando a estrada. Eles não sabem que um barco está vindo, e o que temos é um atropelamento oceânico.

Os cientistas ainda estão tentando entender por que Nova York se tornou um destino para baleias.

Ao longo dos últimos 15 anos, a Gotham Whale, uma organização sem fins lucrativos que monitora a vida marinha de Nova York, identificou 486 baleias-jubarte diferentes na Baía de Nova York, a área marítima em forma de crescente entre Cape May, Nova Jersey, e Montauk Point, no extremo leste de Long Island. A organização também identificou várias baleias-minke, menos comuns, e baleias-fin, baleias-sei, cachalotes e baleias-francas-do-atlântico-norte, espécies ameaçadas de extinção a nível federal e entre as mais raras do mundo. Os pesquisadores observam entre 70 e 90 baleias-jubarte anualmente desde 2019, mas contabilizaram 168 no ano passado, um recorde para a organização.

As temperaturas da água no Golfo do Maine aumentaram devido aos efeitos das mudanças climáticas, e muitas baleias estão passando mais meses perto de Nova York para se alimentar. O porto ficou mais limpo graças a anos de investimentos na modernização da infraestrutura de esgoto e estacas, o que impulsionou o retorno da vida marinha. Restrições estaduais que limitam a quantidade de arenque-do-mar que os pescadores comerciais podem capturar e proíbem grandes redes, conhecidas como redes de cerco, permitiram que as populações de peixes prosperassem.

Muitas baleias jubarte avistadas perto da costa têm menos de 6 anos ou são adultos mais velhos que já passaram da idade reprodutiva. Os cientistas acreditam que os juvenis estão evitando a competição com os adultos e encontraram uma oferta abundante de presas, em vez de viajarem mais para o norte.

— Se você é jovem, não está interessado em acasalar ou dar à luz — disse Reidenberg, acrescentando: — Estamos vendo um padrão de baleias jovens e baleias mais velhas permanecendo perto das águas de Nova York porque é um meio-termo.

Os alimentos delas ficam situados em uma das vias navegáveis ​​mais movimentadas do país. O Porto de Nova York-Nova Jersey é o mais movimentado da Costa Leste e está entre os três portos mais movimentados do país. Em 2024, um ano com leve queda no movimento, 60.928 embarcações comerciais e 760 embarcações de recreio, como iates particulares e barcos de pesca, transitaram pelo Canal Ambrose, a principal rota de navegação do porto, que liga Sandy Hook, Nova Jersey, a Rockaways, segundo a Guarda Costeira dos EUA.

O volume de carga que entra no porto de Nova York aumentou consideravelmente desde a pandemia, quando muitos importadores redirecionaram seus embarques para o Nordeste. Os volumes de carga saltaram 11% entre 2023 e 2024, e 2.678 navios atracaram nos portos da região em 2024, o maior número desde 2015, segundo registros da Autoridade Portuária.

Os relatos de baleias encalhadas também se tornaram mais comuns. Entre 1980 e 2009, a região de Nova York registrou uma média de dois a três encalhes por ano, de acordo com dados da Atlantic Marine Conservation Society. De 2017 a 2025, a média anual saltou para mais de 11, com quase metade das baleias apresentando sinais de interferência humana, como fraturas causadas por colisões com embarcações, ou ferimentos provocados por hélices, ou equipamentos de pesca. Nova Jersey apresentou um aumento semelhante, com 77 encalhes durante o período de nove anos.

Os mamíferos marinhos são particularmente vulneráveis ​​a colisões com grandes navios-tanque, cuja força pode dobrar seus corpos ao meio. As baleias-jubarte têm uma visão tão deficiente que não conseguem perceber a proa bulbosa do navio se aproximando.

— A baleia pode ouvir o navio, mas não percebe que ele está se aproximando porque o som vem das hélices ou do motor mais próximo da popa — disse Danielle Brown, estudante de pós-doutorado em ecologia da Universidade Rutgers e diretora de pesquisa da Gotham Whales. — Quando estão se alimentando, elas ficam distraídas e se movimentam ativamente, mergulhando repetidamente.

A tripulação pode não perceber que atingiu uma baleia até atracar. Quando um navio de cruzeiro da MSC chegou ao Brooklyn em maio de 2024, seu capitão descobriu uma baleia-sei de 13,4 metros, espécie ameaçada de extinção, estendida na proa. A baleia estava em boas condições de saúde antes de o navio fraturar sua omoplata, concluíram os cientistas da AMSEAS.

Embarcações menores também podem causar ferimentos graves. As baleias se acostumaram tanto com o som dos barcos que chegam a se aproximar deles enquanto se alimentam, dizem os pesquisadores. Pescadores que usam redes de arrasto para capturar atum e robalo podem avançar em direção a cardumes de menhaden, ignorando a provável presença de baleias.

— A baleia é essencialmente um indicador de que pode haver atum por perto — disse Charles Witek, um pescador amador de Long Island. Ele acrescentou: — Conheço pescadores que já fisgaram baleias acidentalmente.

Os equipamentos de pesca representam suas próprias ameaças. Quando uma baleia se depara com longas cordas verticais presas a armadilhas para lagostas, ela instintivamente rola para longe, enrolando involuntariamente a grossa corda em sua barbatana dorsal, cauda e boca.

— Esse arrasto desgasta a baleia e pode cortar sua carne, causando infecções, ou até mesmo decepando parte de sua cauda, ou nadadeira, e impedindo-a de se alimentar — disse Reidenberg.

Os esforços para fortalecer as leis federais a fim de reduzir o risco de colisões e emaranhamentos têm apresentado poucos avanços.

Em 2022, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) tentou reduzir os limites de velocidade para embarcações entre 35 e 65 pés para no máximo 10 nós, de novembro a maio, período em que as baleias-francas migram pelo Atlântico Central. A regra aplicava-se apenas a embarcações com mais de 65 pés, mas a NOAA retirou a proposta em janeiro, após intensa pressão da indústria da pesca esportiva.

Em julho, os republicanos da Câmara elaboraram revisões à Lei de Proteção de Mamíferos Marinhos que poderiam permitir maior assédio a esses animais e adiar restrições a equipamentos de pesca. Quatro meses depois, o governo Trump propôs novas regras para a Lei de Espécies Ameaçadas de Extinção que permitiriam a invasão de seus habitats e ignorariam quaisquer efeitos das mudanças climáticas.

Os pescadores e grupos de defesa marítima de Nova York propuseram suas próprias soluções. Concessionárias de iates estão experimentando câmeras térmicas caras que usam inteligência artificial para identificar objetos e compartilhar dados com navegantes próximos. Alguns pescadores comerciais compraram linhas de pesca com sistema de desengate rápido e armadilhas sem corda com sinais acústicos, que são muito mais caras do que os equipamentos de pesca convencionais.

A opção mais econômica é um curso online gratuito. O tutorial de 30 minutos, lançado em setembro pela Nature Conservancy e diversas outras organizações, oferece dicas para operadores de barcos sobre como reconhecer baleias no oceano e evitar colisões.

— A realidade é que muitas baleias estão sendo atingidas por barcos, e não são apenas navios grandes — disse Carl Lobue, cientista marinho da Nature Conservancy. — Ninguém quer atingir uma baleia.

Fonte: O Globo

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