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MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Ausente por cinco anos, o ganso-de-peito-vermelho reaparece na Bulgária e acende alerta climático

30 de março de 2026
3 min. de leitura
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Foto: Save Branta

Imagine acompanhar o retorno de uma ave que parecia ter desaparecido para sempre. O ganso-de-peito-vermelho ficou cinco anos ausente da Bulgária e voltou no início de 2026, carregando um alerta real sobre as mudanças climáticas que estão redesenhando as rotas migratórias de toda a Europa.

Por que o ganso-de-peito-vermelho desapareceu da Bulgária?

Até 2017, a costa búlgara recebia milhares de exemplares durante o período regular de migração. Com o aumento das temperaturas globais, a rota histórica da espécie foi alterada drasticamente, forçando os bandos a permanecerem em latitudes mais ao norte para fugir do calor atípico dos invernos.

Nesse período de ausência, os gansos-de-peito-vermelho buscaram abrigo na Romênia, na Ucrânia e no sul da Rússia. Conforme a Sociedade Búlgara para a Proteção das Aves (BSPB), a espécie é classificada como vulnerável e depende de condições climáticas estáveis para manter suas rotas tradicionais.

O retorno em 2026 foi provocado por um fator específico: uma massa de ar polar intensa atingiu os Bálcãs no início do ano, empurrando as aves de volta aos seus refúgios históricos no sul do continente.

O que a BSPB encontrou no Lago Durankulak?

Entre os dias 15 e 18 de janeiro, a expedição oficial de inverno da BSPB documentou um momento histórico na área do Lago Durankulak. Os pesquisadores registraram um primeiro grupo de 140 exemplares, número que cresceu para 230 animais identificados nos dias seguintes de monitoramento intenso.

Foi a primeira confirmação de pouso seguro da espécie no país em aproximadamente cinco anos. Além dos gansos, a expedição catalogou outros moradores aquáticos em grande quantidade ao longo do litoral:

  • Pato-real: dominou a superfície dos lagos doces e reservatórios da região costeira búlgara.
  • Galinha-d’água: apareceu em grande número nas margens e pântanos do litoral.
  • Cormorão-grande: foi registrado em mergulhos intensos nas águas mais profundas da área.

Qual foi o alcance da contagem de aves aquáticas no Mar Negro?

O frio intenso de janeiro de 2026 não afetou apenas os gansos. O censo regional ao redor do Mar Negro bateu o recorde absoluto da área, registrando 58.000 espécimes somente na região de Varna-Dobrich, impulsionados pelo avanço da massa de ar polar sobre os Bálcãs.

Quais ameaças colocam o ganso-de-peito-vermelho em risco nos Bálcãs?

Conforme os registros sobre a espécie, o ganso-de-peito-vermelho depende totalmente das margens dos lagos e reservatórios para descansar e se alimentar durante a migração. Qualquer degradação nesses pontos de parada representa uma ameaça direta à sobrevivência dos bandos.

As reservas de Shabla, por exemplo, sofreram assoreamento progressivo e queda nos níveis de oxigênio nos últimos anos. Vários microreservatórios da área interiorana secaram por completo ou foram tomados por vegetação densa, destruindo pontos vitais de pouso ao longo da rota.

As principais pressões sobre os habitats da espécie são:

  • Caça indiscriminada: ainda representa risco em trechos da rota migratória sem fiscalização eficiente.
  • Atividades petrolíferas: comprometem a qualidade da água e a disponibilidade de alimento nas áreas costeiras.
  • Agricultura intensiva: reduz os espaços abertos usados pelos gansos para pouso e alimentação.
  • Secas recorrentes: diminuem o nível dos lagos e destroem os microhabitats essenciais para o descanso das aves.

Como o monitoramento de inverno protege o futuro do ganso-de-peito-vermelho

A operação de janeiro de 2026 mobilizou dezenas de voluntários treinados da fronteira romena até o Cabo Emine. Esse trabalho de campo não apenas confirmou o retorno do rebanho, mas evidenciou a urgência de políticas concretas para frear a seca severa que compromete a hidrografia dos Bálcãs.

Garantir o fluxo natural das lagoas costeiras é o caminho mais direto para que essas aves continuem visitando a Europa. O banimento da caça, aliado ao compromisso real dos governos regionais com a preservação dos habitats de descanso, vai definir se o ganso-de-peito-vermelho voltará a fazer parte permanente da paisagem búlgara, ou se este retorno ficará apenas como um episódio raro dentro de uma história crescente de perdas ambientais.

Fonte: Revista Oeste

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