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PERIGO DO AQUECIMENTO

Atlântico Norte ainda se recupera de onda de calor que ocorreu em 2003

Mesmo tendo acontecido há mais de 20 anos, onda de calor fez animais menos adaptados a águas quentes diminuírem ou desaparecerem

20 de janeiro de 2026
Jorge Agle
3 min. de leitura
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Foto: Thomas Barwick/Getty Images

Uma onda de calor marinha ocorrida em 2003 ainda reverbera sobre o ecossistema do Oceano Atlântico Norte, mesmo após mais de 20 anos. É o que afirma um novo estudo realizado por pesquisadores internacionais. Segundo eles, a elevação da temperatura da água e aumento da frequência de ondas fez com que a diversidade das espécies locais se alterasse – enquanto os mais adaptados a climas frios sumiram, os que gostam do calor se proliferaram.

O trabalho identificou que as mudanças afetaram desde microrganismos minúsculos até peixes e baleias essenciais para a pesca comercial local.

O estudo liderado pelo ecologista marinho Karl Michael Werner, do Instituto Thünen de Pesca Marinha, na Alemanha, analisou mais de 100 pesquisas científicas durante o trabalho. Os resultados foram publicados na revista científica Science Advances em 1º de janeiro.

“Os eventos de 2003, que se seguiram a um ano quente como o de 2002, sinalizaram o início de uma fase de aquecimento prolongada em vários locais do Atlântico Norte, diferente de tudo o que já se observou antes. Embora 2003 se destaque como o ano de maior número de ondas de calor marinhas contabilizadas, vários outros no período seguinte apresentaram números também elevados”, escrevem os autores no artigo.

Surgimento da onda de calor e suas consequências no Atlântico Norte

O aquecimento das águas do Atlântico Norte ocorreram devido a dois fatores importantes em 2003: além da onda de calor atingir o local, no mesmo período, as águas árticas, que normalmente também banham o oceano, estavam bem fracas.

O desequilíbrio de temperatura diminuiu a quantidade de gelo marinho e ao mesmo tempo elevou o calor da superfície marítima na região. Estimativas revelam que o mar da Noruega, um dos que compõem a região, chegou a ficar mais quente até profundidades de 700 metros.

O resultado da mudança no ecossistema marinho local foi imediato: enquanto os animais mais adaptados a condições quentes prosperaram, as de água fria perderam espaço.

Por exemplo, desde o ano que ocorreu a onda de calor, orcas são mais vistas no Atlântico Norte – elas não iam para a região há mais de 50 anos. Baleias-de-barbatana também passaram a frequentar as águas mais quentes para se reproduzir e criar seus filhotes.

Por outro lado, as populações de narvais (Monodon monoceros), uma espécie de baleia dentada, e focas-de-capuz (Cystophora cristata) diminuíram, e o número de captura dos animais caiu significativamente após 2004.

Outros animais, como estrelas-do-mar e o bacalhau-do-atlântico, se beneficiaram das mudanças climáticas, através do aumento de disponibilidade de alimento para eles.

“Todas as regiões analisadas mostraram uma reorganização de espécies adaptadas a ambientes mais frios e propensos à formação de gelo para espécies que preferem águas mais quentes, e os impactos do evento alteraram a dinâmica socioecológica”, afirmam os pesquisadores no trabalho.

Alguns tipos de peixe, como peixe-areia e o capelim, também desapareceram com o calor das águas. Isso fez com que alguns de seus predadores, incluindo certos tipos de baleia, migrassem para outras áreas ao norte com condições mais frias. No entanto, os pesquisadores alertam que o aumento da temperatura pode se expandir por toda a extensão do Atlântico Norte.

Apesar de ser um fenômeno natural, as ondas de calor marinhas têm sido cada vez mais influenciadas por efeitos das mudanças climáticas causadas pelos seres humanos, como a queima de combustíveis fósseis. Isso tem provocado um maior aquecimento dos oceanos e, consequentemente, trazendo alterações importantes e perigosas aos ecossistemas marinhos.

“Compreender a importância do giro subpolar (sistema de correntes oceânicas que traz água fria e rica em nutrientes) e da troca de calor entre o ar e o mar será crucial para a previsão de ondas de calor marinhas e seus efeitos em cascata”, ressalta Werner em comunicado.

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