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ADAPTAÇÃO

Árvores em florestas tropicais do Panamá alongam raízes para enfrentar secas

Experimento de longo prazo revela adaptações das árvores à falta de água e aponta limites diante dos impactos das mudanças climáticas

9 de janeiro de 2026
Carina Gonçalves
4 min. de leitura
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Pesquisadores acompanham o crescimento das raízes com câmeras instaladas em tubos enterrados a mais de um metro de profundidade. Foto: Ana Endara, STRI

As florestas tropicais do Panamá estão reagindo à intensificação das secas estendendo suas raízes para camadas mais profundas do solo. A estratégia, observada em um experimento de longo prazo, indica que esses ecossistemas possuem alguma capacidade de adaptação ao estresse hídrico, mas os pesquisadores alertam trata-se de um “resgate” temporário que pode não ser suficiente diante do avanço das mudanças climáticas.

Esses ecossistemas concentram mais da metade da biodiversidade terrestre do planeta e armazenam grandes quantidades de carbono, boa parte dele abaixo da superfície, nas raízes. O aquecimento global, no entanto, eleva as temperaturas e aumenta a frequência e a intensidade das secas prolongadas, ameaçando esse equilíbrio.

O estudo, publicado na revista New Phytologist, em 21 de novembro, integra o experimento PARCHED (Panama Rainforest Changes with Experimental Drying). Cientistas instalaram 32 parcelas em quatro áreas de florestas tropicais panamenhas com diferentes características composição de espécies, nutrientes do solo e índices de chuva. Sobre essas parcelas, foram erguidas coberturas transparentes capazes de impedir que 50% a 70% da água da chuva chegasse ao solo. Trincheiras revestidas por plástico ao redor dos locais também evitaram a entrada de água externa pelas laterais.

Para acompanhar as transformações subterrâneas, a equipe coletou amostras de solo por cinco anos, utilizou armadilhas de raízes e instalou câmeras em tubos enterrados a até 1,2 metro de profundidade. O resultado foi consistente entre as quatro florestas analisadas: a seca crônica reduziu as raízes finas superficiais, mas estimulou o crescimento de raízes mais profundas.

“As árvores compensaram a morte das raízes superficiais enviando raízes finas para o interior do solo, presumivelmente para obter umidade”, disse Daniela Cusack, ecóloga de ecossistemas da Universidade Estadual do Colorado, que faz parte do experiemento desde 2015, em entrevista a Live Science. Esse mecanismo ajuda a manter o funcionamento hidráulico e fisiológico das plantas, mas não recupera integralmente a perda de biomassa ou de carbono observada no ecossistema.

“O crescimento das raízes não é suficiente para compensar a perda de carbono ou biomassa”, disse ela. “É mais como uma ‘estratégia de resgate’ para que as árvores mantenham sua função hidráulica e fisiológica.”

O estudo também identificou outra reação importante. As raízes superficiais remanescentes apresentaram maior colonização por fungos micorrízicos arbusculares, organismos que vivem em associação com as plantas e aumentam o acesso a água e nutrientes. Essa parceria pode funcionar como um reforço temporário para as árvores sob estresse hídrico.

Especialistas que não participaram da pesquisa destacam que, embora algumas espécies de florestas tropicais já estejam adaptadas historicamente a ambientes mais secos, essas características evoluem ao longo de longos períodos. O ritmo atual das mudanças climáticas pode impor secas mais intensas e frequentes em regiões que não tiveram tempo de desenvolver tais estratégias. Espécies menos tolerantes tendem a declinar ou desaparecer, alterando toda a dinâmica do ecossistema.

Cusack alerto que a adaptação fundamental não era uma garantia contra as mudanças climáticas. “Nosso estudo de cinco anos é bastante curto em termos da vida útil das florestas tropicais”, disse ela. “Não sabemos por quanto tempo a floresta pode sustentar essas adaptações.”

Os próximos passos da pesquisa incluem avaliar se a maior produção de raízes profundas realmente aumenta a resistência das florestas à seca crônica continuada e se essa “engenharia de sobrevivência” será suficiente em um planeta cada vez mais quente e seco.

Fonte: Revista Galileu

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