O Ártico entrou em uma nova era de eventos climáticos extremos, segundo estudo internacional baseado em mais de 70 anos de dados, que identifica aumento recente e acelerado desses episódios, com impactos potenciais sobre ecossistemas, equilíbrio de carbono, gelo marinho e populações humanas da região.
Análise de décadas revela mudança recente e acelerada
A pesquisa analisou séries históricas extensas para identificar eventos climáticos extremos no Ártico, com atenção especial a extremos de curto prazo que não aparecem em médias mensais. O levantamento incluiu dados sobre ondas de calor, secas e cobertura de neve ao longo de mais de sete décadas.
Os pesquisadores constataram que a frequência desses eventos aumentou de forma significativa, sobretudo nas últimas três décadas. Em aproximadamente um terço do domínio ártico, tais ocorrências passaram a ser registradas apenas recentemente, indicando uma mudança climática sem precedentes.
Segundo o ecologista Gareth Phoenix, da Universidade de Sheffield, os resultados demonstram que o Ártico está entrando em uma nova era climática. Ele afirma que a intensificação recente desses eventos sugere consequências graves para os ecossistemas da região.
Regiões mais afetadas e expansão geográfica
O estudo aponta que os eventos extremos tornaram-se mais frequentes e amplamente distribuídos, com surgimento de novas áreas afetadas ao longo do tempo. Embora o fenômeno seja generalizado, algumas regiões foram identificadas como pontos críticos de maior impacto.
Entre as áreas mais atingidas estão a Sibéria Central, a Escandinávia Ocidental e a costa da Groenlândia. Nessas regiões, a intensificação dos eventos extremos tem sido mais acentuada em comparação com outras partes do Ártico.
Esse padrão indica que, além do aumento geral da frequência, há também uma concentração regional de impactos, o que pode gerar desequilíbrios ecológicos localizados e pressões adicionais sobre sistemas naturais e comunidades humanas.
Chuva sobre neve e efeitos indiretos na fauna
Entre os eventos extremos observados, destaca-se o aumento de episódios de chuva sobre a neve, associados ao aquecimento climático. Quando a chuva cai sobre superfícies nevadas e posteriormente congela, forma-se uma camada de gelo que bloqueia o acesso a fontes de alimento.
Esse processo afeta diretamente animais como as renas, que dependem de líquens disponíveis sob a neve. A formação de crostas de gelo dificulta a alimentação e pode comprometer a sobrevivência desses animais em determinadas áreas.
Embora o estudo não tenha analisado diretamente as consequências ecológicas, os autores indicam fortes evidências de efeitos indiretos drásticos. São condições climáticas para as quais a flora e a fauna do Ártico não estão acostumadas nem preparadas, o que agrava os riscos ambientais.
Implicações ecológicas, carbono e limites dos dados
Especialistas ressaltam que a sazonalidade é fundamental para o funcionamento dos ecossistemas do norte. O cientista climático Juha Aalto, do Instituto Meteorológico Finlandês, destaca que o período de crescimento e as condições de neve são cruciais para o sucesso das espécies árticas.
As mudanças descritas podem alterar o equilíbrio entre a captura e a liberação de carbono na região. Com o encolhimento do gelo marinho e o degelo da tundra, o papel do Ártico no ciclo global do carbono tende a ser modificado.
O estudo reconhece limitações metodológicas, pois utilizou estimativas e aproximações em áreas com escassez de dados de campo. Mesmo assim, os pesquisadores afirmam que os resultados oferecem um quadro consistente da intensificação recente dos eventos extremos.
Pesquisas anteriores já indicavam que o Ártico aquece mais rapidamente que o restante do planeta, levando à redução da cobertura de gelo. Especialistas também usam o termo escurecimento ártico para descrever a perda de vida vegetal, fenômeno associado aos eventos extremos analisados.
Para a geocientista Miska Luoto, da Universidade de Helsinque, a descoberta sugere que os ecossistemas do Ártico estarão cada vez mais expostos a condições nunca antes experimantadas. Segundo ela, isso pode gerar consequências significativas a longo prazo para a natureza da região.
A pesquisa foi publicada na revista Science Advances e reforça o alerta sobre mudanças irreversíveis em curso nos ecossistemas do planeta, à medida que o aquecimento global avança de forma contíinua no extremo norte da Terra.
Fonte: Click Petróleo e Gás