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MORTES EVITÁVEIS

Arquitetura hostil: em menos de 48 horas dezenas de pássaros morrem em colisões com muro de vidro de um prédio em Curitiba (PR)

Dados compilados ao longo de sete décadas apontam que esses acidentes ocorrem com maior frequência em períodos de migração e reprodução.

26 de março de 2026
Redação ANDA
4 min. de leitura
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Foto: Reprodução

Um prédio em Curitiba (PR) se transformou em cenário da morte de dezenas de aves que colidiram contra muro de vidro em menos de 48 horas. Com exceção de uma sobrevivente, todas as outras morreram após o impacto.

O registro, feito em vídeo pelo fotógrafo @edu___photo, mostra que superfícies de vidro são armadilhas para aves, o que especialistas e defensores dos direitos animais vêm denunciando há anos. Incapazes de perceber a transparência ou o reflexo do ambiente, elas seguem em voo e colidem violentamente contra essas estruturas. O resultado, na maioria das vezes, é a morte imediata ou ferimentos fatais.

 

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O caso de Curitiba é apenas uma fração visível de um problema disseminado. Em uma única fachada, em um curto intervalo de tempo, dezenas de vidas foram perdidas.

Existe uma falha estrutural na forma como as cidades são projetadas, com a priorização estética e arquitetônica sobre a vida dos animais. Soluções simples, acessíveis e já amplamente testadas, como adesivos anticolisão em padrões visíveis para aves, seguem sendo ignoradas ou tratadas como opcionais.

Um estudo, coordenado por dois pesquisadores brasileiros e por um cientista da Universidade de Helsinque, na Finlândia, e publicado na revista Ecology analisou colisões de aves com superfícies de vidro ao longo de sete décadas, entre 1946 e 2020, em 11 países da América Central e do Sul. Ao todo, foram registrados 4.103 indivíduos atingidos, pertencentes a mais de 500 espécies, algumas delas ameaçadas de extinção.

Desse total, 2.537 aves morreram imediatamente após o impacto, enquanto 1.515 foram encontradas vivas e encaminhadas a centros de reabilitação. Os casos tendem a se concentrar em períodos críticos, como migração e reprodução, quando o fluxo de aves é mais intenso.

No Brasil, o levantamento contabilizou 1.452 casos, incluindo espécies raras e ameaçadas da Mata Atlântica, como o gavião-pombo-pequeno (Buteogallus lacernulatus), a cigarrinha-do-sul (Sporophila falcirostris) e a saíra-pintor (Tangara fastuosa). Em São Paulo, por exemplo, foram registradas 629 colisões, um indicativo de que o problema está longe de ser pontual.

A pesquisadora Flávia Guimarães Chaves, do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), ressalta que não há diferença significativa entre vidros translúcidos ou reflexivos: ambos representam risco. Para as aves, o obstáculo simplesmente não existe até o momento do impacto.

Apesar da gravidade, as soluções são conhecidas e de baixo custo. A aplicação de adesivos em padrões regulares, como bolinhas espaçadas entre 10 e 15 centímetros, permite que as aves identifiquem o vidro como barreira. Outras alternativas incluem cortinas antirreflexo, persianas e o uso de vidros serigrafados ou com faixas ultravioletas visíveis para as aves.

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