A Arena Pernambuco, estádio com capacidade para 45.440 pessoas construído para a Copa do Mundo de 2014, será transformada em palco da final do Circuito Nacional BYD de Vaquejada em 2026. A competição, prevista para novembro, marca a primeira vez que um espaço desse porte e relevância sediará uma disputa baseada na instrumentalização de animais, ampliando a normalização dessa prática no país.
Localizado em São Lourenço da Mata, a 19 quilômetros de Recife, o estádio abriga grandes partidas de futebol. Em 2026, no entanto, o complexo esportivo passará a receber a vaquejada, modalidade que envolve perseguição, derrubada e tração forçada de bois.
O circuito contará com 16 etapas ao longo do ano, sete delas em Pernambuco, mas a escolha do estádio pernambucano para a final nacional confere à realização um status de espetáculo de massa, equiparando-a a competições esportivas consolidadas e ampliando sua repercussão midiática.
O anúncio foi feito no gramado, durante uma transmissão ao vivo com o cantor Wesley Safadão e a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, que confirmou o respaldo do governo estadual à iniciativa. A forma e o local da comunicação mostram o esforço de legitimação da vaquejada como entretenimento de grande escala, com chancela política e ampla exposição pública.
“Pernambuco recebe de braços abertos o Circuito Nacional BYD de Vaquejada. É uma competição de alcance nacional, mas com grande parte acontecendo no nosso estado. Isso é muito importante para a nossa cultura, nossa alma e nossa identidade”, afirmou a governadora. “Onde é clássico do futebol, teremos clássico de vaquejada. No lugar do gol, teremos a faixa de boi.”
Ao comparar o futebol com essa atividade, a governadora contribuiu para disfarçar a gravidade da violência imposta aos animais envolvidos, colocando práticas incompatíveis sob o mesmo patamar. A fala banaliza a dor dos bois ao tratá-los sem valor em um local que deveria representar lazer, inclusão e valores compatíveis com o interesse de toda a sociedade.
A participação da BYD como patrocinadora principal do circuito também é contraditória. A maior fabricante de veículos elétricos do mundo constrói sua imagem global associada à sustentabilidade, inovação e ao “futuro da mobilidade”, mas atrela sua marca a uma disputa baseada no sofrimento animal. Ao dar nome a uma realização marcada por maus-tratos intrínsecos, a empresa contradiz o próprio discurso ambiental que promove em campanhas institucionais, revelando a desconexão entre a retórica de responsabilidade socioambiental e as ações que escolhe financiar.
Embora a vaquejada tenha sido legalizada por lei federal após forte pressão política e econômica, a legalidade não elimina os impactos físicos e psicológicos impostos aos animais explorados, como fraturas, lesões internas, rompimento de ligamentos, dor intensa e até morte.
Quando uma atividade marcada por violência contra animais passa a ocupar um lugar público desse porte, com transmissão, patrocínio e apoio institucional, a questão deixa de se restringir à legalidade e assume uma dimensão ética incontornável.
Diante do anúncio, ativistas em defesa dos direitos animais em Pernambuco já começaram a se mobilizar contra a realização da final.