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ALTAS TEMPERATURAS

Aquecimento global: calor da areia pode definir o futuro das tartarugas marinhas no Brasil

Mais de 9,4 mil filhotes nasceram no sul da Bahia em 2026, mas avanço do aquecimento global gera preocupação sobre o equilíbrio populacional das espécies

2 de março de 2026
Nilson Cortinhas
5 min. de leitura
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Filhotes de tartarugas marinhas seguem em direção ao oceano no litoral sul da Bahia. Foto: Divulgação/IMA

O nascimento de 9.411 filhotes de tartarugas marinhas, entre janeiro e fevereiro de 2026, no litoral sul da Bahia, é considerado um dado relevante para a conservação da biodiversidade costeira brasileira. No entanto, por trás da boa notícia registrada nas praias de Belmonte e Guaiú, cientistas acompanham um debate que pode redefinir o futuro dessas espécies: a temperatura da areia.

Monitorados pelo Programa de Monitoramento de Quelônios, mantido pela Veracel Celulose com execução técnica do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA), os filhotes das espécies tartaruga-cabeçuda, tartaruga-de-pente e tartaruga-oliva conseguiram completar o ciclo natural e alcançar o oceano após semanas de incubação nos ninhos distribuídos ao longo de 35 quilômetros de litoral.

O resultado é oriundo de duas décadas de ações de conservação na região, sendo que também detalha como as mudanças climáticas, causadas pela queima massiva de combustíveis fósseis, como petróleo e gás, começam a interferir diretamente na dinâmica reprodutiva marinha.

Duas décadas de monitoramento

De acordo com o coordenador de Meio Ambiente da Veracel Celulose, Tarciso Andrade Matos, o número expressivo de filhotes não pode ser analisado isoladamente, já que a reprodução das tartarugas ocorre em ciclos naturais.

“O número de filhotes liberados varia a cada temporada reprodutiva, porque existe uma oscilação natural na quantidade de desovas. As fêmeas possuem intervalo reprodutivo entre temporadas, que em geral ocorre a cada dois ou três anos”, explica.

Mesmo com essa variação biológica, o acompanhamento sistemático dos ninhos indica estabilidade no sucesso reprodutivo. “Monitoramos o sucesso de eclosão de cada ninho e a grande maioria vem apresentando média dentro do esperado, cerca de 70% de ovos eclodidos”, afirma.

O programa acompanha desde a identificação das desovas até a chegada dos filhotes ao mar, além de manter um Centro de Reabilitação de Tartarugas Marinhas voltado ao tratamento de animais debilitados encontrados na região.

Principais ameaças

Apesar do avanço da conservação, as praias de desova continuam expostas a pressões humanas crescentes, especialmente, em áreas turísticas. De acordo com Matos, a região enfrenta desafios históricos. “Em praias de desova nos deparamos com ameaças como caça e coleta de ovos, destruição do habitat pela ocupação desordenada do litoral, iluminação artificial e o trânsito de veículos”, diz.

Em Belmonte, a coleta de ovos para consumo humano e a predação por animais domésticos ainda são registradas. Para reduzir esses impactos, o programa mantém ações permanentes de educação ambiental junto às comunidades locais fora da temporada reprodutiva.

Outro fator crescente é a erosão costeira, que pode destruir ninhos antes da eclosão. “A erosão da praia impacta diretamente na perda de ninhos pelo avanço da maré. Estamos acompanhando esses processos e avaliando áreas para transferência de desovas em trechos mais vulneráveis”, explica o coordenador.

O sexo das tartarugas é definido pelo calor — e o clima pode interferir

Entre os fenômenos mais curiosos, e preocupantes, observados pelos pesquisadores está o fato de que o sexo das tartarugas marinhas não é determinado geneticamente, mas pela temperatura da areia durante a incubação.

Temperaturas acima de aproximadamente 30 °C tendem a produzir mais fêmeas, enquanto valores abaixo de 29 °C favorecem o nascimento de machos.

Esse mecanismo natural, que garantiu a sobrevivência das espécies por milhões de anos, pode se tornar um ponto de vulnerabilidade diante do aquecimento global.

“Pesquisas indicam que, em um futuro próximo, poderemos ter um número muito maior de tartarugas adultas fêmeas do que machos, podendo causar um desequilíbrio e impactar diretamente na reprodução destes animais”, alerta Matos.

Dessa forma, o aumento da temperatura média global não altera apenas correntes marítimas ou níveis do mar: interfere diretamente em processos biológicos fundamentais, como a determinação sexual e o equilíbrio populacional das espécies.

Ainda segundo Tarciso Andrade Matos, cenários extremos podem levar, inclusive, ao cruzamento entre espécies diferentes. “Indivíduos de diferentes espécies podem começar a acasalar e pesquisas terão que ser realizadas para entender a viabilidade reprodutiva dessas populações”.

Fonte: Um só Planeta

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