Uma operação para o extermínio de 5 mil búfalos começou nesta semana em Rondônia, materializando uma resposta violenta do Estado a um problema que ele próprio criou décadas atrás e evidenciando a escolha pela eliminação em massa como atalho diante de um desequilíbrio ambiental previsível, ignorado por anos e agora tratado com urgência.
Coordenado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o projeto piloto prevê a erradicação de cerca de 10% dos aproximadamente 5 mil búfalos que vivem na região, o equivalente a cerca de 500 indivíduos. Na prática, trata-se da execução direta desses animais por agentes armados com rifles, em uma operação que já matou quase 30 búfalos apenas no primeiro dia, celebrada internamente como “produtiva”.
Embora o discurso oficial se apoie no argumento do desequilíbrio ambiental, os búfalos não são invasores por escolha, mas resultado de um experimento econômico fracassado conduzido pelo próprio poder público na década de 1950. Abandonados sem qualquer política de manejo, foram deixados para se reproduzir descontroladamente e agora são enquadrados como um problema a ser eliminado, como se fossem os responsáveis pela crise.
A afirmação de que matar é a única saída tem sido alvo de críticas implícitas até dentro do próprio campo científico e ambiental. O próprio projeto admite lacunas fundamentais, já que ainda não se sabe com precisão como os animais reagem à operação, nem quais serão os efeitos das carcaças deixadas no ambiente. Ou seja, a matança ocorre ao mesmo tempo em que se tenta entender suas consequências, um indicativo claro de improviso anunciado como estratégia.
Enquanto isso, os corpos permanecem no local. Pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia coletam órgãos, tecidos e sangue dos animais abatidos para investigar possíveis doenças. “O objetivo da equipe de pesquisa é justamente coletar o máximo de material biológico”, explicou o professor Alex Cicinato, indicando que nem sequer há diagnóstico completo sobre os riscos sanitários antes da execução em larga escala.
Paralelamente, câmeras serão instaladas próximas às carcaças para observar se outros animais irão consumi-las e quais efeitos isso pode gerar, mais uma vez sem saber se haverá contaminação, morte de espécies nativas ou desequilíbrios adicionais, mostrando que o impacto da estratégia ainda é, em grande parte, desconhecido.
A operação ocorre em uma área de extrema sensibilidade ecológica, onde se encontram a Reserva Biológica do Guaporé, a Reserva Extrativista Pedras Negras e a Reserva de Fauna Pau D’Óleo, uma zona de transição entre Amazônia, Pantanal e Cerrado, rica em biodiversidade e espécies endêmicas.
Reconhecer os impactos causados por uma espécie fora de seu habitat não pode servir como justificativa automática para sua erradicação violenta. Ao optar pela eliminação em larga escala, o projeto deixa em segundo plano alternativas que poderiam ter sido exploradas ao longo de décadas, como controle reprodutivo, manejo progressivo ou políticas preventivas que evitassem o colapso atual.
Mais do que isso, a meta de “tornar a matança mais eficiente” reduz vidas a variáveis de desempenho. Ainda que o plano mencione a intenção de “causar o menor sofrimento possível”, a execução sistemática de centenas de animais carrega um peso ético incontornável — especialmente quando direcionada a indivíduos que não têm qualquer responsabilidade pelas decisões humanas que os colocaram ali.
O cenário em Rondônia mostra que as decisões humanas introduzem espécies, a ausência de gestão amplia o problema e, décadas depois, a resposta recai sobre os próprios animais, que são transformados em vilões.