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Animais explorados pela pecuária estão consumindo mais antibióticos do que as pessoas

28 de dezembro de 2016
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Foto: Getty Images
Foto: Getty Images

Há muito tempo, os cientistas alertam para uma crise de superbactérias resistentes a medicamentos e agora um especialista diz que no próximo ano passaremos por um momento histórico preocupante.

Em 2017, muitos de nós podem morrer de infecções bacterianas comuns ao mesmo tempo em que os animais explorados em fazendas devem consumir ainda mais antibióticos do que a quantidade maciça ingerida pelos seres humanos. À medida que a resistência aumenta, ficamos cada vez mais vulneráveis a uma série de infecções e vírus comuns, como infecções do trato urinário, gonorreia, tuberculose e malária.

O aumento acentuado no uso de antibióticos na criação de animais em todo o mundo tem despertado cada vez mais atenção. O perigo do uso de antibióticos na carne tem sido agravado pela indústria e recentemente foi reconhecido como uma grande preocupação pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

Na primeira pesquisa deste tipo realizada em 2015, os pesquisadores calcularam que fazendeiros em todo o mundo administraram 63 mil toneladas de antibióticos para galinhas, porcos e vacas por ano e esse número deverá subir em cerca de 70% para 106 mil toneladas até 2030.

Em entrevista à New Scientist, o professor de Epidemiologia de Doenças Infecciosas da Universidade de Edimburgo, Mark Woolhouse, alertou sobre o ponto de inflexão, dizendo que os antibióticos na produção de alimentos estavam desempenhando um papel crucial na resistência aos próprios antibióticos.

“Estamos prestes a chegar ao ponto em que mais antibióticos serão consumidos por animais que vivem em fazendas em todo o mundo do que por seres humanos”, afirmou.

O cenário preocupante agrava o uso generalizado de drogas antimicrobianas na medicina, o que gera problemas no tratamento de várias doenças – resultando em cerca de 70 mil mortes por ano em todo o mundo, de acordo com um relatório recente produzido pelo Departamento de Saúde do Reino Unido.

Foto: University of Edinburgh
Foto: University of Edinburgh

Não houve poucos especialistas ou líderes mundiais que alertaram sobre a aproximação de um “apocalipse de antibióticos”. Um deles foi o ex-primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron.

Em 2014, ele disse: “Se não agirmos, teremos um cenário quase inacreditável no qual os antibióticos não funcionam mais e somos lançados de volta para a era das trevas da medicina”.

Certamente, ele não está sozinho em sua terrível perspectiva. Em novembro, a diretora mundial da Organização Mundial da Saúde (OMS), Margaret Chan chamou a resistência aos antibióticos de “uma crise global”.

“A ameaça é fácil de descrever: resistência antimicrobiana está em ascensão em todas as regiões do mundo”, disse ela, sugerindo que o mundo estava indo para uma “era pós-antibiótico”.

Em 2015, a Austrália lançou um esforço concentrado para abordar a questão, juntando-se à Europa e aos EUA, por meio da introdução de um sistema que examina o uso de antibióticos e a resistência entre os pacientes australianos.

De acordo com os dados recolhidos pela OCDE, o uso de antibióticos na Austrália é 10% maior do que a média da OCDE. Embora os médicos comumente prescrevam muitos antibióticos para os pacientes, não está inteiramente claro como o seu uso na agropecuária tem afetado o problema na região.

O veterinário-chefe da Austrália, Mark Schipp, disse que mais dados são necessários para entender o significado do uso de antibióticos na agropecuária do país.

Em setembro, a ONU se reuniu para discutir o problema e a FAO anunciou um plano de ação para reduzir a propagação da resistência aos antibióticos nas cadeias globais de fornecimento de alimentos.

“Os medicamentos antimicrobianos desempenham um papel crítico no tratamento de doenças de animais que vivem em fazendas e plantas”, disse a FAO em um comunicado.

“O seu uso é essencial para a segurança alimentar, para o nosso bem-estar e para o bem-estar animal. No entanto, o uso indevido desses medicamentos, associado à emergência e propagação de micro-organismos resistentes aos antimicrobianos, coloca todos em risco”, completou.

Foto: UQ Institute for Molecular Bioscience
Foto: UQ Institute for Molecular Bioscience

Falando na reunião, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse que “a resistência antimicrobiana tornará mais difícil, se não impossível, a cobertura universal de saúde de alta qualidade”.

“É um escândalo que os governos coloquem os interesses da agropecuária e do setor farmacêutico veterinário à frente da necessidade de preservar a eficácia dos antimicrobianos para combater as doenças humanas”, disse Peter Stevenson, conselheiro político do grupo Compassion in World Farming.

Aumento das superbactérias

A resistência aos antibióticos provocou a ameaça real e crescente de superbactérias, que causariam até 10 milhões de mortes por ano até 2050.

A previsão terrível forçou os cientistas a procurar novos métodos para resolver o problema e vários laboratórios australianos estão liderando o caminho.

Pesquisadores do Instituto Hudson de Pesquisas Médicas em Victoria recentemente descobriram que um antisséptico da Primeira Guerra Mundial poderia ser útil no combate a superbactérias.

O antisséptico, Acriflavine, foi usado no início dos anos 1900 para tratar a “doença do sono”, mas não tem sido usado há 50 anos porque os antibióticos e a penicilina foram inventados e combateram as bactérias de forma mais eficaz.

“Nosso estudo indica que a acriflavina estimula o sistema imunológico do hospedeiro – em vez de simplesmente matar bactérias – sugerindo que não seria tão provável conduzir mutações em bactérias, mostrando uma salvaguarda contra a resistência e uma alternativa potencial para drogas antibacterianas atuais”, disse Genevieve Pepin, uma dos pesquisadoras envolvidas.

Em setembro, cientistas de Melbourne desenvolveram uma cadeia de moléculas de proteínas em forma de estrelas chamadas polímeros peptídicos que poderiam derrotar as superbactérias ao “rasgar” suas paredes celulares.

Os polímeros peptídicos fazem com que a adaptação para sobrevivência e desenvolvimento das bactérias seja muito difícil, mas há muito mais pesquisas sendo feitas antes que os resultados possam apresentar uma genuína droga contra as superbactérias.

“Há muito trabalho antes de ir para a comercialização”, disseram os pesquisadores ao portal News.

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