O transporte de bois vivos para exportação dobrou entre 2023 e 2025, mesmo com todas as comprovações sobre o sofrimento causado aos animais. Embora o volume ainda seja inferior ao das vendas de carne bovina, que ultrapassaram 3 bilhões de quilos no último ano, a exportação de animais vivos atingiu recorde em 2025, chegando a quase 4 milhões de quilos, segundo dados da plataforma Agrostat, do Ministério da Agricultura.
Grande parte desse comércio ocorre por via marítima. Os bois são enviados principalmente para países da região do Magreb, como Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Mauritânia e Saara Ocidental, onde são engordados e mortos. As viagens duram, em média, dez dias. Também há transporte aéreo, mas restrito a animais destinados à reprodução e exportação de material genético.
Superlotação e ambiente insalubre
Os navios podem transportar de 4 mil a 30 mil animais. O mais comum é o embarque de bezerros com cerca de 300 quilos. Pela Instrução Normativa 46/2018 do Ministério da Agricultura, um animal desse porte pode ocupar apenas um metro quadrado no navio, espaço até dez vezes menor do que o praticado em confinamentos em terra, segundo especialistas.
Embarcações como o navio NADA, fotografado no Porto do Rio Grande (RS) em janeiro de 2026 com capacidade para 26 mil animais, são provas dos maus-tratos sofridos. Em 2018, outro navio ficou uma semana retido no Porto de Santos (SP) com 25 mil bois a bordo, após embargo. Foram registradas superlotação, acúmulo excessivo de fezes e urina, além de forte odor que afetou moradores da região. Após a liberação, a embarcação seguiu viagem para a Turquia.
A ventilação é outro ponto sensível. Nos decks inferiores, a circulação de ar depende de sistemas de exaustão semelhantes aos de garagens subterrâneas. Como um boi de 300 kg pode consumir cerca de 40 litros de água por dia, a produção de urina e fezes é elevada, gerando acúmulo de amônia e alta umidade, e nem sempre há estrutura suficiente para drenar todos os dejetos produzidos.
“O bovino não é um animal que gosta de se deitar sobre as próprias fezes. Invariavelmente, ele acaba deitando em cima delas. Estar de acordo com a legislação não é sinônimo de conforto”, afirma a professora Aline Sant’Anna, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que estuda o transporte marítimo de animais.
Mortes e falta de transparência
Embora representantes do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários (Anffa Sindical) afirmem que a fiscalização é rigorosa e que os navios deixam o Brasil dentro das exigências legais, não há dados oficiais consolidados sobre mortalidade nas viagens. Segundo integrantes do próprio sindicato, podem ocorrer de uma a três mortes por trajeto, número considerado “baixo” frente a carregamentos que chegam a 20 mil animais.
Casos recentes, porém, mostram que os dados fornecidos pelo Sindicato são irreais. No fim de 2025, um navio vindo do Uruguai com cerca de 3 mil vacas ficou um mês encalhado na Turquia, causando dezenas de mortes e, possivelmente, descarte de carcaças no mar.
Em 2024, uma embarcação que saiu do Rio Grande do Sul com destino ao Iraque fez parada na África do Sul e deixou a Cidade do Cabo com um “fedor inimaginável”, segundo relato publicado pelo jornal britânico The Guardian. Representantes de um conselho sul-africano de combate à crueldade animal encontraram bois mortos, doentes e cobertos de fezes, classificando a situação como “abominável”.
Há ainda denúncias de que resíduos são lançados ao mar durante o trajeto, gerando impacto ambiental adicional.
Fiscalização limitada
Antes do embarque, os animais passam por Estabelecimentos de Pré-Embarque (EPE), onde podem cumprir quarentena, receber vacinas e passar por exames. O navio também é vistoriado antes da partida. No entanto, após deixar o território nacional, o Brasil perde poder de fiscalização, ficando dependente dos relatórios apresentados pelos importadores ao final da viagem.
Alguns países já proibiram esse tipo de comércio, como Reino Unido e Nova Zelândia, após anos de pressão popular e casos de maus-tratos.
O crescimento desse mercado mostra cada vez mais a preferência pelo lucro em detrimento da dignidade e respeito pelos animais. Em nome de nichos de consumo e interesses comerciais, milhares de animais enfrentam dias confinados em ambientes insalubres, sob estresse intenso e com risco de doenças e lesões, uma realidade que, mesmo dentro da lei, está longe de representar bem-estar para seres sencientes.