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"Ainda enxugamos muito gelo": tráfico de aves silvestres tem penas brandas e reincidência

Mesmo com atuação de forças policiais, entidades ambientais e Ministério Público, crime é tratado na prática como de menor potencial ofensivo

29 de janeiro de 2026
André Malinoski
11 min. de leitura
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Foto: Jonathan Heckler / Agencia RBS
O combate ao

O combate ao tráfico de animais silvestres no Rio Grande do Sul envolve órgãos ambientais, forças policiais e o Ministério Público da União e do Estado, mas esbarra em uma legislação vista por especialistas como branda.

Mesmo com esse esforço conjunto, é comum haver criminosos reincidentes — muitos já conhecidos das autoridades.

Nem toda criação de aves silvestres é irregular. Para estar dentro da lei no Rio Grande do Sul, é preciso que os animais tenham anilhas autorizadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e que os criadores sejam regulados pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema).

— Temos de 10 mil a 12 mil criadores amadores que mantêm passarinhos nativos autorizados — diz Mateus Leal, chefe da Divisão de Controle e Monitoramento da Qualidade Ambiental da Sema.

A fiscalização desse tipo de atividade é uma das funções da Sema. As vistorias, que são acompanhadas por forças policiais, ocorrem de acordo com demandas e denúncias. Geralmente, são encontradas aves sem anilhas, ocasiões em que são feitas as apreensões administrativas.

— Quando possível, fazemos a soltura imediata dos pássaros — afirma Leal. — Senão, o animal vai para algum estabelecimento parceiro, como o Cetas do Ibama (Centro de Triagem de Animais Silvestres do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) ou o Zoológico de Sapucaia do Sul.

pássaro mais traficado no Estado, segundo Leal, é o canário-da-terra. Depois, vêm azulão-verdadeiro, cardeal, trinca-ferro, coleirinho, papa-capim e algumas espécies ameaçadas no Rio Grande do Sul, como o curió e o bico-de-pimenta.

Animais escondidos nas boleias de caminhões

O comandante Rodrigo Gonçalves dos Santos, do Comando Ambiental da Brigada Militar (CABM), afirma que o tráfico de pássaros no Rio Grande do Sul ocorre de duas formas. Uma é doméstica e envolve as espécies canoras — os criadores estão concentrados na Região Metropolitana, na Região Sul e no Litoral Norte. A outra engloba os fornecedores que levam os animais para a Região Metropolitana.

O tráfico ainda amplia seus tentáculos e fornece aves para outras regiões do país e para vizinhos de fronteira, como Argentina e Uruguai.

— Os animais são capturados em outros Estados e passam pelo Rio Grande do Sul, geralmente escondidos nas boleias de caminhões — ilustra.

Grupo especializado

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) tem um importante papel no combate a esse tipo de crime ao fiscalizar as estradas do país. Conforme o policial Douglas Paveck, chefe de Comunicação Social da PRF no Estado, no trabalho transfronteiriço do órgão há um grupo especializado em coibir os crimes ambientais.

— Nosso trabalho é realizado tanto nas fiscalizações que acontecem de forma ordinária no dia a dia quanto por aquelas orientadas por inteligência. São duas frentes, com apoio desse grupo de combate aos crimes ambientais — explica o policial.

Apreensões na BR-101

De acordo com o inspetor rodoviário, a maioria das apreensões ocorrem em vias que ligam o Rio Grande do Sul ao Sudeste do país, especialmente na BR-101. As capturas são efetivadas com mais frequência na Campanha, região rica e contemplada pela diversidade de aves com belos cantos.

“Normalmente, quando encontramos (as aves traficadas), várias delas já estão mortas.”- Douglas Paveck, Chefe de Comunicação Social da Polícia Rodoviária Federal no Estado

Após o flagrante, o criminoso é preso e é feito um tempo circunstanciado. A PRF contata o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Ibama para decidir para onde os animais resgatados serão encaminhados.

— Tivemos casos de animais escondidos em forros de veículos. Teve uma situação em que resgatamos aves escondidas dentro do painel de uma caminhonete — recorda.

Denúncias de veículos suspeitos de transporte de animais silvestres podem ser feitas de forma anônima pelo telefone 191.

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